Há dias, um militante socialista de seu nome Daniel Adrião, escreveu um interessante artigo no “Público”, com o título “A política está a mudar.

Habituem-se!”.

Na opinião deste especialista em Comunicação, o que se está a passar actualmente no PS corresponde à primeira vez em Portugal em que a “intervenção no espaço público extravasou e rompeu com as barreiras do espaço político formal”.

Dito de outra forma, esta inesperada crise interna é acima de tudo um reflexo da decrepitude do próprio sistema político, e a prova de força duma nova forma de “intervenção cívica, acelerada pelo espaço público virtual e pelas redes sociais”.

Nos últimos parágrafos do artigo o autor conclui: “As novas formas de intervenção no espaço público estão a permitir aos cidadãos desestruturar os velhos modelos de organização centralista e substituí-los por processos de comunicação baseados no diálogo em rede, muitas vezes desenvolvidos em canais que escapam ao controlo dos dirigentes. (…)A emergência de António Costa como candidato à liderança do PS não teria sido possível, (…), se não tivesse encontrado na sociedade civil uma “câmara de eco” que soou de forma ruidosa no espaço público, impondo-se ao partido. António José Seguro foi apenas a primeira vítima. Habituem-se!

Não é novidade a cada vez menor identificação dos cidadãos com os partidos, a crescente recusa das lógicas aparelhísticas, a insatisfação (cada vez menos silenciosa) das próprias bases (desencantadas) relativamente às cúpulas (cristalizadas), e o progressivo alheamento que se traduz em níveis de abstenção assustadores… Assustadores se calhar não, porque às Direcções Partidárias bastam os votos suficientes para manter tudo como está:

uma vitória eleitoral (mesmo que relativa) dificilmente é deslustrada pelo número de ausentes, enquanto uma derrota (mesmo que estrondosa) pode sempre resvalar para a conveniente diluição da culpa pelos abstencionistas.

Além disso, quando se ganha há mérito do topo, desse “topo” difuso onde cabem alguns dirigentes, familiares e amiguinhos (as) q.b., tudo gente ordeira, cordata e unida em torno dum ideal comum (leia-se “manter o poleiro”); nas derrotas a culpa é sempre alheia – os maus da fita não são os eleitores que alteraram o seu sentido de voto, não são as outras forças partidárias que apresentaram melhores argumentos, não são as tais cúpulas que persistiram num caminho errado, não…os inimigos dilectos são as temidas “oposições internas”! Esta perversão de conceitos permite transformar em vilões e “personas non gratas” os (ainda) militantes e dirigentes que ousam ter opinião própria (oh heresia!), têm o desplante de exprimi-la (oh infâmia!!), e para cúmulo ainda a difundem nas redes sociais ou através doutros veículos, como a imprensa (oh martírio, oh inclemência!!!).

A consequência natural deste mecanismo de “culpabilização da divergência” em nome duma unidade de fachada, artificial e artificiosa, faz com que se torne penoso o exercício da cidadania dentro dum partido. Muitos optam por sair, desiludidos e desgastados, outros mudam de partido (nunca mais se livrando de epítetos como “vira-casacas e ressabiados”), outros ainda rendem-se à evidência e remetem-se ao silêncio (aguardando serenamente que a “tigela de sopa” lhes chegue à frente), outros ainda persistem até à exaustão e ganham o duvidoso estatuto de mártires…

Mas muito de vez em quando acontece um caso como o de Seguro e Costa – um líder que ostenta várias vitórias sucessivas, que promoveu alterações estatutárias para melhor se “reconduzir” no poder, que domina a máquina e controla os órgãos partidários, e que subitamente se vê confrontado por um adversário quase unanimemente encarado como potencial sucessor, e que foi quase forçado ao confronto para não correr o risco de se tornar numa promessa eternamente adiada.

Ainda bem que estas coisas só acontecem em Lisboa…

Raul Ribeiro