como terá passado Deus durante estes 500 anos na Diocese do Funchal? A Diocese do Funchal conta 500 anos neste ano da graça de 2014. Então, coloquemos a seguinte pergunta, como terá passado Deus durante estes 500 anos na Diocese do Funchal? Ao pensar assim não me fico apenas na história da Igreja que pode ser analisada pelos historiadores. O que será interessante observar, por sinal, é que pode ficar apenas uma igreja vista pela rama cujos elementos principais serão, os bispos, os padres e as freiras. E a «passagem de Deus»? - Sem dúvida, que é mais difícil ver neste prisma, mas toca a dimensão mais profunda da nossa Igreja, e é ao serviço de Quem deve estar. Em suma, qual a sua contribuição para o ser humano e para a população da Madeira como um todo? E, obviamente, é preciso perguntar «que Deus» é que passou e passa pela história da Madeira. Muitos não gostam de ver por aqui, mas é o elemento que faz mais sentido para olhar o passado da Igreja Católica na nossa terra, para viver o presente e preparar o futuro. Nos vários momentos de exploração a que se viram votadas as gentes da Ilha, o que foi feito em nome de Deus, o Deus do Evangelho, anunciado pelas grandes figuras dos descobrimentos noutras bandas. Por ex. Bartolomeu de Las Casas, Padre António Vieira, São Francisco Xavier e toda a plêiade de mártires das várias Ordens religiosas - alguns até passaram pela «grande Diocese do Funchal» - «global» não, porque esta palavra é dos nossos dias, soa a anacronismo aplicar uma palavra de hoje a uma realidade de há 500 anos, ainda mais se considerarmos que o sentido de global não se aplica ao que se quer dizer sobre a Diocese do Funchal que foi a maior do mundo em extensão territorial. O que ouviram os «vilões e as viloas» nas nossas igrejas quando eram espoliados pelos senhores (os colonos) que eram donos de tudo e de todos? O que sabiam eles do amor de Deus pelos pobres, pelos sem lugar e vez nas mesas fartas que meia dúzia de gente que se dizia de «sangue azul», que matava, roubava os bens e a dignidade das pessoas (é destes 500 anos a regra da «Prima Nocte»)? – Inês Afonseca, a grande lutadora contra a Colonia e que trabalhou incansavelmente para organizar os caseiros dizia: «Quando o caseiro ia pagar a renda ao senhorio e este dizia: ‘mande-me cá a pequena’ já se sabia... Exploravam o trabalho dos filhos e desgraçavam-lhes as filhas... O 25 de Abril é que fez mudar muita coisa. Eu digo: foi a maior alegria da minha vida, maior do que quando me casei. Muitos caseiros sentiram este grande acontecimento como se fosse uma dádiva do céu». Será que a Diocese do Funchal pode, comungar, dizer e rezar em júbilo esta libertação? Mais há mais. Que Deus passava diante das pregações exaltadas sobre o inferno, sobre os castigos de um deus imaginado à medida do poder eclesiástico, isto é, sobre a melhor forma de agradar ao deus dos bispos e dos padres que só e apenas se manifestava pela submissão? Onde estava Deus na injustiça que se fazia ao povo, «reles vilões» que se afogavam em álcool e no trabalho escravo à mão de colonos sanguessugas que se plantaram na Ilha da Madeira? Onde estava Deus no clericalismo madeirense que vivia sob as maiores mordomias e pregava a intolerância perante o diferente - não esquecer a perseguição aos protestantes (1838-1846), que culminou com a expulsão do Dr. Kalley, pastor protestante que realizou na Madeira uma obra de educação e evangelização a todos os níveis extraordinária. Teve que sair da Madeira disfarçado de mulher para escapar da perseguição que a Igreja Católica lhe tinha movido. O que tivemos foi em muitos momentos uma Igreja profundamente devocional, intimista, de movimentos submissos à hierarquia, sem iniciativa e totalmente dominados por ditames de meia dúzia, porque o povo deseja-se pouco ou nada pensante, para não dizer inculto. Tudo seria feito para evitar que quem crê se voltasse contra os poderosos. Falta purificar tanta coisa porque ainda proliferam devoções de todo tipo, as de antes e as de agora que alienam sobremaneira. Com facilidade se dilui o Jesus vigoroso da Galileia, do Jordão, o profeta de denúncias do templo e do tempo de Jerusalém, a favor de devoções, baseadas em aparições com fundo sentimentalista. Falta a agora no júbilo dos 500 anos dizer e confiar com simplicidade na divina providência que pode atrair ao Pai/Mãe de Jesus, ao Filho que é Jesus de Nazaré e ao Espírito Santo, que é Senhor e dador da vida e Pai dos pobres. José Luís Rodrigues
como terá passado Deus durante estes 500 anos na Diocese do Funchal?
A Diocese do Funchal conta 500 anos neste ano da graça de 2014. Então, coloquemos a seguinte pergunta, como terá passado Deus durante estes 500 anos na Diocese do Funchal? Ao pensar assim não me fico apenas na história da Igreja que pode ser analisada pelos historiadores. O que será interessante observar, por sinal, é que pode ficar apenas uma igreja vista pela rama cujos elementos principais serão, os bispos, os padres e as freiras. E a «passagem de Deus»? - Sem dúvida, que é mais difícil ver neste prisma, mas toca a dimensão mais profunda da nossa Igreja, e é ao serviço de Quem deve estar. Em suma, qual a sua contribuição para o ser humano e para a população da Madeira como um todo? E, obviamente, é preciso perguntar «que Deus» é que passou e passa pela história da Madeira. Muitos não gostam de ver por aqui, mas é o elemento que faz mais sentido para olhar o passado da Igreja Católica na nossa terra, para viver o presente e preparar o futuro. Nos vários momentos de exploração a que se viram votadas as gentes da Ilha, o que foi feito em nome de Deus, o Deus do Evangelho, anunciado pelas grandes figuras dos descobrimentos noutras bandas. Por ex. Bartolomeu de Las Casas, Padre António Vieira, São Francisco Xavier e toda a plêiade de mártires das várias Ordens religiosas - alguns até passaram pela «grande Diocese do Funchal» - «global» não, porque esta palavra é dos nossos dias, soa a anacronismo aplicar uma palavra de hoje a uma realidade de há 500 anos, ainda mais se considerarmos que o sentido de global não se aplica ao que se quer dizer sobre a Diocese do Funchal que foi a maior do mundo em extensão territorial. O que ouviram os «vilões e as viloas» nas nossas igrejas quando eram espoliados pelos senhores (os colonos) que eram donos de tudo e de todos? O que sabiam eles do amor de Deus pelos pobres, pelos sem lugar e vez nas mesas fartas que meia dúzia de gente que se dizia de «sangue azul», que matava, roubava os bens e a dignidade das pessoas (é destes 500 anos a regra da «Prima Nocte»)? – Inês Afonseca, a grande lutadora contra a Colonia e que trabalhou incansavelmente para organizar os caseiros dizia: «Quando o caseiro ia pagar a renda ao senhorio e este dizia: ‘mande-me cá a pequena’ já se sabia... Exploravam o trabalho dos filhos e desgraçavam-lhes as filhas... O 25 de Abril é que fez mudar muita coisa. Eu digo: foi a maior alegria da minha vida, maior do que quando me casei. Muitos caseiros sentiram este grande acontecimento como se fosse uma dádiva do céu». Será que a Diocese do Funchal pode, comungar, dizer e rezar em júbilo esta libertação? Mais há mais. Que Deus passava diante das pregações exaltadas sobre o inferno, sobre os castigos de um deus imaginado à medida do poder eclesiástico, isto é, sobre a melhor forma de agradar ao deus dos bispos e dos padres que só e apenas se manifestava pela submissão? Onde estava Deus na injustiça que se fazia ao povo, «reles vilões» que se afogavam em álcool e no trabalho escravo à mão de colonos sanguessugas que se plantaram na Ilha da Madeira? Onde estava Deus no clericalismo madeirense que vivia sob as maiores mordomias e pregava a intolerância perante o diferente - não esquecer a perseguição aos protestantes (1838-1846), que culminou com a expulsão do Dr. Kalley, pastor protestante que realizou na Madeira uma obra de educação e evangelização a todos os níveis extraordinária. Teve que sair da Madeira disfarçado de mulher para escapar da perseguição que a Igreja Católica lhe tinha movido. O que tivemos foi em muitos momentos uma Igreja profundamente devocional, intimista, de movimentos submissos à hierarquia, sem iniciativa e totalmente dominados por ditames de meia dúzia, porque o povo deseja-se pouco ou nada pensante, para não dizer inculto. Tudo seria feito para evitar que quem crê se voltasse contra os poderosos. Falta purificar tanta coisa porque ainda proliferam devoções de todo tipo, as de antes e as de agora que alienam sobremaneira. Com facilidade se dilui o Jesus vigoroso da Galileia, do Jordão, o profeta de denúncias do templo e do tempo de Jerusalém, a favor de devoções, baseadas em aparições com fundo sentimentalista. Falta a agora no júbilo dos 500 anos dizer e confiar com simplicidade na divina providência que pode atrair ao Pai/Mãe de Jesus, ao Filho que é Jesus de Nazaré e ao Espírito Santo, que é Senhor e dador da vida e Pai dos pobres.
José Luís Rodrigues