Não há como negar, a Madeira é a última Matrioska da dívida O rótulo de madeirense anda especialmente penoso na capital. Não estou a falar dos clássicos. Apesar de irritantes, digerem-se bem as confusões com o sotaque açoriano, as arengas sobre a plataforma continental africana e o povoamento por prisioneiros, a insinuação de que somos todos primos, e a fastidiosa presunção de que andamos doidos para falar de poncha. Não senhor. O pior é carguejar a expiação da dívida pública de Portugal inteiro. O País tem uma troika? A Madeira tem a troika de quem tem a troika. O País está sob assistência financeira? A Madeira está sob assistência financeira do País sob assistência financeira. O País deve dinheiro ao exterior? A Madeira deve dinheiro ao País que deve dinheiro ao exterior. Não há como negar, a Madeira é a última Matrioska da dívida. Naturalmente, isto é motivo de regozijo para quem dá por si não tão mal como pensava, e não é fácil de contra-argumentar. Mas é sempre curioso testemunhar o salto retórico quando se começa pela Matrioska maior. Com muita probabilidade, o interlocutor continental será a favor de um perdão da dívida portuguesa. E defendê-lo-á com um discurso mais ou menos estandardizado: “Porque a banca (...) a Alemanha (...) juros usurários (...) ditadura das finanças (...) Dr. Mário Soares (...) destruição da nossa economia (...) solidariedade europeia (...) regresso ao fascismo (…) até a Manuela Ferreira Leite! (...) não, a Política tem de voltar a mandar na economia! (…) renegociar a dívida (...) investimento em sectores reprodutivos (…) parar com os cortes salariais (…) quem nos emprestou sabia que tínhamos esta Constituição, agora amanhe-se”. Depois do monólogo, é interessante alimentar uma pequena farsa, e perguntar, não sem sadismo, se ele concorda com o perdão da dívida da Madeira. Invariavelmente, esse caso será “diferente! Vocês mereceram que a vossa Economia fosse ao chão. Gastaram à grande e sem critério nenhum (...) obras públicas (...) paraíso fiscal (...) desorçamentação (...) captura privada de negócios rendosos (…) falta de iniciativa privada (...) já estamos mal, ainda vamos dar mais? (…) agora amanhem-se.” E assim prosseguirá, num transe a interromper com promessas de que sabemos o que se passa com o Cristiano Ronaldo, ou com a tal conversa sobre poncha. Paramos aqui? Paramos. O ponto está provado. O outro foi persuadido a associar o dinheiro emprestado a um investimento, em vez de o tomar como um direito. Deixou de ser o Português reformista que é com o dinheiro dos outros, e passou ao Alemão austero que é com o seu. Compelindo-o a falar da Madeira, compelimo-lo a falar de si. Identificar o lugar do outro, e consentir que os seus valores variem de acordo com a sua circunstância é a marca do pluralismo, e o necessário ponto de partida para mudar seja o que for nesta vida. Por essa Europa fora, admite-se que se confunda o português falado com o castelhano. Que se lance atoardas sobre a costa Africana, as investidas mouras, as relações de parentesco, e que se alimente a fastidiosa presunção de que o português quer sempre falar de vinho ou do Cristiano Ronaldo. Lisboa, quando quer, é Berlim. E quanto menos nos revemos em Berlim, mais razão lhe damos para continuar a ser Berlim. Pedro Fontes Advogado
Não há como negar, a Madeira é a última Matrioska da dívida
O rótulo de madeirense anda especialmente penoso na capital. Não estou a falar dos clássicos. Apesar de irritantes, digerem-se bem as confusões com o sotaque açoriano, as arengas sobre a plataforma continental africana e o povoamento por prisioneiros, a insinuação de que somos todos primos, e a fastidiosa presunção de que andamos doidos para falar de poncha. Não senhor. O pior é carguejar a expiação da dívida pública de Portugal inteiro. O País tem uma troika? A Madeira tem a troika de quem tem a troika. O País está sob assistência financeira? A Madeira está sob assistência financeira do País sob assistência financeira. O País deve dinheiro ao exterior? A Madeira deve dinheiro ao País que deve dinheiro ao exterior. Não há como negar, a Madeira é a última Matrioska da dívida. Naturalmente, isto é motivo de regozijo para quem dá por si não tão mal como pensava, e não é fácil de contra-argumentar. Mas é sempre curioso testemunhar o salto retórico quando se começa pela Matrioska maior. Com muita probabilidade, o interlocutor continental será a favor de um perdão da dívida portuguesa. E defendê-lo-á com um discurso mais ou menos estandardizado: “Porque a banca (...) a Alemanha (...) juros usurários (...) ditadura das finanças (...) Dr. Mário Soares (...) destruição da nossa economia (...) solidariedade europeia (...) regresso ao fascismo (…) até a Manuela Ferreira Leite! (...) não, a Política tem de voltar a mandar na economia! (…) renegociar a dívida (...) investimento em sectores reprodutivos (…) parar com os cortes salariais (…) quem nos emprestou sabia que tínhamos esta Constituição, agora amanhe-se”. Depois do monólogo, é interessante alimentar uma pequena farsa, e perguntar, não sem sadismo, se ele concorda com o perdão da dívida da Madeira. Invariavelmente, esse caso será “diferente! Vocês mereceram que a vossa Economia fosse ao chão. Gastaram à grande e sem critério nenhum (...) obras públicas (...) paraíso fiscal (...) desorçamentação (...) captura privada de negócios rendosos (…) falta de iniciativa privada (...) já estamos mal, ainda vamos dar mais? (…) agora amanhem-se.” E assim prosseguirá, num transe a interromper com promessas de que sabemos o que se passa com o Cristiano Ronaldo, ou com a tal conversa sobre poncha. Paramos aqui? Paramos. O ponto está provado. O outro foi persuadido a associar o dinheiro emprestado a um investimento, em vez de o tomar como um direito. Deixou de ser o Português reformista que é com o dinheiro dos outros, e passou ao Alemão austero que é com o seu. Compelindo-o a falar da Madeira, compelimo-lo a falar de si. Identificar o lugar do outro, e consentir que os seus valores variem de acordo com a sua circunstância é a marca do pluralismo, e o necessário ponto de partida para mudar seja o que for nesta vida. Por essa Europa fora, admite-se que se confunda o português falado com o castelhano. Que se lance atoardas sobre a costa Africana, as investidas mouras, as relações de parentesco, e que se alimente a fastidiosa presunção de que o português quer sempre falar de vinho ou do Cristiano Ronaldo. Lisboa, quando quer, é Berlim. E quanto menos nos revemos em Berlim, mais razão lhe damos para continuar a ser Berlim.
Pedro Fontes Advogado