João T. Gouveia Desde de muito novo que ouço dizer que “ gostos não se discutem”, como se o gosto fosse algo meramente subjectivo e estanque, destituído de razão ou qualquer fundamento. Este ditado surgia como que uma espécie de ponto final nas discussões, relativizando tudo aquilo que estava em causa e retirando qualquer tipo de objectividade à questão. Aquele ditado, na verdade, funcionava como um obstáculo para o conhecimento e por conseguinte ao “gosto” de qualquer um. Todos nós podemos ter uma ligeira inclinação ou intuição, se assim o quisermos chamar, para gostar mais ou menos de uma determinada coisa, sem que para isso tenha que existir uma experiência significativa para com essa mesma coisa, ou seja, pode existir de facto uma tendência “a priori” para gostamos ou não de certas coisas. Contudo, estaremos equivocados caso não se considere a importância da aprendizagem, que muitas vezes não é fácil, no processo segundo o qual os gostos surgem. A discussão e compreensão de ideias sobre qualquer objecto, seja ele uma simples música ou um filme, pode ensinar-nos a ver além do aspecto meramente formal, dando novos significados que à partida não seriam claros. Quando não se tenta compreende, é muito mais fácil dizer-se que não se gosta, do que aprender a gostar. Posto isto, quero dizer que os gostos não são apenas impulsos emocionais, mas também construções racionais que implicam pensar acerca do contexto donde as coisas emergem e que o “não gosto”, por sua vez, também implica uma outra construção de ideias. Não Gostar por não gostar não é nada, é pura e simplesmente não pensar. O gosto é. assim, dinâmico, uma via de afirmação que não deve ser entendido como um fim e si mesmo, mas antes como um meio de confrontação para com o mundo em constante devir. Uma substância mutável que deve surgir da nossa capacidade de descoberta e de abertura à experiência. Gostos discutem se sim e aprendem-se.