É certo e sabido que isto das brigas partidárias pega de galho. É cíclico. É quase como no mundo da bola. Os resultados não aparecem, a equipa não ganha e adivinha-se chicotada psicológica. Treinador para a rua, vem nova equipa técnica, reforços entre os jogadores e a coisa lá vai durante mais algum tempo. Até à próxima sucessão de derrotas ou, na melhor das hipóteses, até àquele momento em que a esperada (e prometida) vitória não aparece ou foge das mãos como peixe vivo. Faz parte do jogo democrático e das dinâmicas internas dos partidos. Desta lógica de ‘puxa de um lado e estica do outro’ não vem necessariamente mal ao mundo. É melhor uma briga às claras do que profundas divergências entre agentes públicos escondidas durante anos e anos. É mais saudável um convicto e sonoro não, do que um encolhido e temeroso sim. É mais honesto fazer uma cara feia no momento da discórdia do que revelar um parvo sorriso amarelo. Isto tudo para dizer que a política é assim mesmo. E que a divergência, quando assumida com honestidade, às claras e sem paninhos-quentes, é democraticamente saudável. Mais difícil é compreender este fenómeno quando todo um povo, como acontece na Madeira, está habituado a que o partido da voz única viva sem estes arrufos. Porque a maioria política que a minha geração conheceu só agora dá sinais de pensar diferente. Como já o disse noutras oportunidades, com excepção dos últimos anos de Miguel Albuquerque, foi assim com todos os agora opositores do jardinismo. Durante anos e anos e ainda mais anos, nunca se lhes ouviu publicamente uma discórdia que fosse digna desse nome. E mesmo agora, entre alguns daqueles que mais mal dizem do ainda líder, é preciso recordar que o aplaudiram até fazer calos nas mãos. Assistiram curvados, quase até ajoujar, a dezenas de discursos vazios de estratégia desenhada nos adros das igrejas. Ouviram até à exaustão a receita da vitória sem que lhes doesse a coluna. Estamos assim perante dois blocos que parecem completamente distintos. Mas apenas parecem. Porque, no fundo, as diferenças são cada vez menos. E aqui é justo reconhecer que isso acontece não porque a oposição tenha aprendido a ‘comer e calar’, como durante anos fizeram os homens e mulheres do poder, mas porque o poder experimenta um mundo novo. E esse mundo, ao contrário do que sempre aconteceu na ‘Madeira Nova’ já não é garantia de poder em troca de silêncio. Esse mundo obriga a ir à luta, a ouvir o povo, a ver para lá dos gabinetes. Obriga a um maior compromisso com a verdade. Ao choque de ideias e valores, ao inevitável fim da paz podre que durou décadas. E isso implica naturais divergências. Voltemos ao início: é certo e sabido que isto das brigas partidárias pega de galho. Mas são mais feias e menos verdadeiras quando resultam apenas da ameaça de queda dos galhos do poder.