A vida vale menos de um segundo, o agora é quase ilusório. Entre vírgulas é o espaço onde acumulamos rotinas, reconhecemos prazeres e enfrentamos medos e tristezas profundas. Em cada parágrafo tentamos criar história, dar um sentido à existência. Cada percurso é um roteiro vivencial, um mapa de significados e significâncias. Da comédia ao drama cada história é um livro inacabado sem previsão do fim. E o fim um dia acontece sem hora marcada nem introdução ao tema. Uma história interrompe-se para que outros a continuem. Só que nem sempre existe harmonia na construção das histórias de vida, até porque o escritor da sua própria vida nunca surge isolado na criação da obra. Desde a génese que se encontra associado a outros elementos que não teve oportunidade de escolher. É uma obra realizada em equipa que se inicia sem liderança e tantas vezes desformatada. Uma massa moldável carregada de memórias vai sendo conduzida por um fluído transformador que potencia, a seu tempo, a construção de uma identidade própria. Ainda que pareça a escrita nunca é solitária e em cada um de nós existe o confluir de histórias de outros que, mesmo sem termos alguma vez conhecido, acompanham-nos na hereditariedade familiar. São partes invisíveis da memória onde reconhecemos a existência sem recurso a formas, texturas, cheiros ou sabores. A memória geracional é vital e urge ser cuidada e referenciada ao longo das gerações. Culturas desprovidas de memórias ancestrais são culturas insanas. Esta noção de ligação permanente dá segurança e conforto aos seguidores. Os estafetas sentem o percurso dos que os antecedem e continuam ligados pela vontade comum. Que ninguém se iluda que é apenas o sangue novo que tem força para construir, lutar e vencer. Os alicerces geracionais são a essência que se mantém apesar das contrariedades. Culturas evoluídas são aquelas que respeitam as histórias anteriores e as contemporizam no essencial, renovando e acrescentando capítulos. As novas gerações precisam de revitalizar as suas histórias percebendo o significado dinâmico de continuidade não despejando sem critério experiências passíveis de serem revitalizadas. Como os livros as histórias não se copiam renovam-se com espírito criador, não ignorando os clássicos nem os arrojados promotores de novos estilos. A leitura do passado, suportada na comunicação entre gerações devia ser estimulada pelas famílias atuais em consonância com uma cultura global promotora e facilitadora da mesma. Ninguém escreve sozinho.
Manuela Parente