João T. Gouveia A febre das redes sociais e a necessidade de partilhar tudo e mais alguma coisa, torna-nos ilusoriamente mais próximos dos outros e cada vez mais distantes da realidade. Cada apontamento de vida, por mais insignificante que seja, é hoje partilhado por inúmeras pessoas, seja no facebook ou noutra rede social qualquer, esta necessidade feroz de afirmar para o outro o seu espaço e o seu tempo, pode revelar o medo da insignificância ou de ser esquecido fora daquela “Alegoria da Caverna”. A privacidade passa a ter sentido se só quando mostrada e avaliada por outrem. Ora, isto é a própria negação de privacidade, que passa a ser mediada e transformada no olhar no outro. A necessidade de ser avaliado pelos outros, pode andar muito perto da necessidade de sermos aceites, contudo no contexto virtual, tudo não passa de uma ficção, onde não raras vezes o grau de aceitação mede-se num número de “gostos”, onde não há espaço para a discussão e argumentação. Os “gostos” funcionam como uma espécie de “ranking”, quantos mais, supostamente maior a identificação do outro para connosco. É muito fácil fazer “gosto”, basta clicar e numa fracção de segundos ele surge. A automatização e frequência com que o fazemos, anulam frequentemente a nossa atenção para o significado do objecto que estamos a avaliar. Assim, o “gosto” passa a ser um mero selo sem fundamento e substância, uma “maçã envenenada” que alimentará o vazio existencial de muitos. Estou no facebook, logo existo. Não.