O termo crise remete para mudança, alteração e para a necessidade de adaptação individual. Mas a forma como a crise tem sido debatida, sobretudo num plano global, sob a perspetiva económica, financeira e política, dificilmente deixa espaço para a análise das vivências individuais e concretas do cidadão comum. A versão palpável da crise verifica-se, na verdade, na experiência individual da perda de capacidade económica e/ou do desemprego, bem como na vivência subjetiva de um clima de ameaça, insegurança e, mesmo, de desesperança, que abalam o equilíbrio pessoal e constituem um ingrediente fundamental para a apatia social e para o sofrimento psicológico – e, em última instância, para o surgimento da doença física e mental. Em momentos de crise e austeridade económica, a Organização Mundial da Saúde (OMS) refere verificar-se um agravamento e aumento significativo dos problemas a nível da saúde mental, maior mortalidade, crescimento da taxa de suicídio e fatalidades associadas ao consumo de substâncias, como o álcool. Focando-se a psicologia no bem-estar individual e social, é comum perguntar-se nestes períodos sobre qual é o seu papel em tempo de crise. Numa resposta imediata, podemos dizer que é o mesmo que fora dela. Isto é, a crise não altera o propósito ou o foco de intervenção da psicologia. No entanto, é reconhecido internacionalmente o imperativo de trazer ao debate quais os contributos das ciências do comportamento e da psicologia para contexto actual. Se, por um lado, existem evidências sobre a forma como a crise económica afeta o bem-estar individual e psicológico dos indivíduos, outras existem que revelam que a recuperação económica depende de uma boa saúde mental dos mesmos – designadamente, a doença mental está associada a uma perda de produtividade de cerca de 3% a 4% do PIB na União Europeia. Neste sentido, o papel da psicologia na compreensão e na promoção do bem-estar, da dignidade, da autonomia, e da adaptação dos indivíduos, poderá ajudar na recuperação da esperança e na procura de alternativas e novas soluções, face à mudança, à incerteza, e à adversidade. Vários estudos internacionais, citados no relatório sobre custo-efectividade de intervenções psicológicas em cuidados de saúde (disponível no sítio da Ordem dos Psicólogos), mostram a eficácia e o potencial da intervenção psicológica (em diferentes campos e áreas de análise) na melhoria do estado de saúde geral do cidadão, na otimização de recursos, e na redução de custos diretos (ex: redução do período de internamento e consumo de fármacos) e indiretos (ex: absentismo e menor produtividade) com a saúde. Pensar a psicologia em tempo de crise, e citando o relatório da OMS (2011) sobre o impacto da crise nos europeus, é assumir o seu papel enquanto ciência para “uma saúde mental equilibrada (…) no qual o indivíduo percebe a sua ou as suas próprias capacidades, consegue lidar com as tensões normais da sua vida, pode trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a sua comunidade”. Só com uma boa saúde mental existem as condições cognitivas e emocionais para o ajustamento e adaptação do cidadão face a adversidade. Pensar a psicologia em tempo de crise é pensar, portanto, no seu contributo, nas diferentes áreas de intervenção, para o bem-estar do indivíduo e da sociedade, e, consequentemente, para um desenvolvimento social e económico mais equilibrado.
Cláudio Sousa Presidente da Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses