Li uma entrevista no DN do escultor Ricardo Veloza. Fi-lo com particular atenção, não só pelo afeto que sustenta a nossa já longa amizade, mas também pelo grande respeito que tenho pela sua arte. Confesso que senti alguma inquietação. Receei lá encontrar uma certa pose de artista, um discurso rebuscado, uma intelectualidade excessiva e tanto a gosto do mundo das artes. Não, lá estava nessa entrevista o Ricardo que sempre conheci. Discreto por opção, contido por educação e sempre aquele olhar atento aos desvarios estéticos que lhe merecem uma critica certeira mas elegante e com um fino humor. Conversa bem agradável. Na entrevista não há recados escondidos, nem recriminações desagradáveis. Assume sem qualquer resguardo os seus compromissos e é reconhecido a quem o ajudou. A critica pontual e elegante surge apenas quando defende as suas ideias ou opções que nem sempre foram bem entendidas. Não estamos habituados a esta postura e não é fácil para quem entrou e saiu de tantos cargos públicos, particularmente numa sociedade de tantas fidelidades e cumplicidades viscosas. Conversa arejada, límpida e sem cosmética. Por momentos, fez-me esquecer uma Europa inquieta e prisioneira dos poderosos, um país que sabe o que não quer mas não confia em quem diz ter a solução, uma ilha que finalmente se agita e se prepara para um novo ciclo que traga consigo uma democracia que respeite a dignidade e o pensamento de cada um. Fez-me esquecer a abstenção escandalosa, única vencedora das ultimas eleições e que deveria envergonhar todos os políticos e os seus partidos. E a propósito de partidos, não imagino o Ricardo a ler os regulamentos de qualquer partido para ficar a saber onde começa e acaba a fidelidade que é exigida. Conheço sim a sua lealdade para com valores e princípios que defende, para com o passado histórico que respeita, para com o bom senso que vai construindo todos os dias. Mas para além da dimensão humana que protege e alimenta a nossa amizade, sou testemunha atenta do valor da sua arte. No dia dos meus anos, o Ricardo ofereceu-me um seu desenho, com o meu retrato. Fiquei particularmente sensibilizado e quis retribuir esse seu gesto. Nos seus anos ofereci-lhe um pequeno texto que pretende ser o seu retrato, feito apenas com palavras sentidas. Com a sua previa autorização, partilho esse pequeno texto com os nossos leitores. - Um dia, o destino (ou Deus … quem sabe) pegou na tua mão e desenhou o gesto, o traço que só a Arte define. Da folha branca fizeste a luz e a sombra, o rosto sereno, a nobreza do cavalo, a pose do corpo, o cio da nudez, o silencio do olhar, a ternura do sorriso. Depois, na pedra e no bronze, encontraste a alma secreta desta cidade e gravaste para alem do tempo a memoria desta ilha. Espetador atento de todas as marés, ficarás para sempre aqui, na margem daquilo a que pertences, debruçado no recorte elegante e discreto de uma janela gótica.
Manuel de Brito