Começo a suspeitar daquelas demoras do Tribunal Constitucional em pronunciar-se sobre as alterações de leis. No último acórdão, três das quatro 'novas' normas do Orçamento de Estado para 2014 foram chumbadas - cortes salariais na função pública, cortes nas pensões de sobrevivência e a redução dos subsídios de desemprego e doença. Uma decisão que, pelo que foi anunciado, não tem efeitos retroactivos para os trabalhadores do Estado. Ou seja, o Tribunal Constitucional não autoriza cortes na função pública mas também não obriga o Estado a repor aquilo que andou a tirar desde o início do ano, enquanto os juízes do Palácio Ratton ‘se debruçavam’ sobre a matéria. É uma charada de retórica difícil de compreender, por mais que os juízes mais bem pagos e privilegiados de Portugal nos recomendem para "ler bem" os argumentos dos seus acórdãos.

O primeiro-ministro tem razão ao lamentar que não pode arranjar, em 24 horas, uma alternativa ao chumbo dos diplomas quando o Tribunal Constitucional demorou quatro meses a chegar a uma conclusão. Por mais que saibamos que o Governo já tinha na manga os velhos trunfos dos novos aumentos de impostos. Por mais que soubéssemos que as leis aprovadas para permitir ao Governo poupar 1,5 mil milhões de euros representavam uma fisgada na Constituição. Quem tem motivos para ficar “profundamente preocupado” são todos os seres vivos que contribuem para este país que anda a reboque de um Governo apressado e de um Tribunal Constitucional atrasado. E por aqui vamos nós no oitavo pára-e-arranca em apenas três anos.

Convém ao Governo assumir, neste cômputo, a sua quota parte de responsabilidade, em vez de (aproveitando a gíria do futebol) se queixar dos golos anulados por terem sido marcados em fora-de-jogo. Pelos vistos não é só no desporto com bola que a culpa é do árbitro. Ontem mesmo ouvi duas boladas de raiva enviadas por Paulo Portas e por Passos Coelho que fizerem estremecer a barra do Tribunal Constitucional.

Esta lengalenga em torno dos chumbos e dos legisladores, que já vai demasiado longa, começa a tornar-se num perigoso jogo de forças cúmplices em pólos opostos. São chumbos a mais em tão pouco tempo. E é pressa a mais contra tanta apatia. Esta é já a imagem de marca da governação em Portugal e uma nova era na vida democrática. Chegou-se ao ponto que a reforma do Estado coloca um país inteiro perante esta dialética: ‘eles chumbaram, agora aguentem-se’. E carrega português! É um ciclo vicioso que mantém a sustentabilidade no presente mas continua a hipotecar o nosso futuro e o dos nosso filhos: primeiro fabricam-se memorandos, depois exportam-se as medidas e no fim reza-se para que a máquina interna não engripe, constitucionalmente falando.

A prova está, mais uma vez, dada. O resultado deste já longo epíteto dos chumbos está a desenhar-se. Bruxelas acabou de dar ‘luz verde’ para uma nova subida de impostos. Para baixar o défice já este ano até vale afrouxar o crescimento da economia. E lá voltamos a regredir.