Miguel Fonseca Durante 10 anos - Sócrates foi eleito Secretário-Geral do PS em 2004 -, o reduto segurista manteve-se fria e calculadamente calado. Ia as congressos, batia aplausos de circunstância, mas sem entusiasmo, não criticou acerbamente a governação socialista, mas também não a apoiou nem respondeu aos ataques dos adversários do PS, mantendo, perante esses ataques, um silêncio de cumplicidade significativa de que não criticava também porque não podia. E assim esperou, com mais paciência que Jacob por Lia, mas sem a paixão deste, a sua vez. Agora, atacado no seu reduto, sacode a farinha que disfarça, desde sempre, as garras lupinas. E ataca António Costa, desde logo procurando conotá-lo à governação socialista de Sócrates. Mas fá-lo baseado em três equívocos. Mostra, que ideologicamente, sempre se identificou com a ideia de que o povo português teria cometido um suposto pecado, tal como os outros povos do sul, do qual teria de ser punido exemplarmente – “O Povo Português aprendeu a lição”, disse Cavaco – supõe-se que aprendeu a lição passando a viver miseravelmente, sem saúde e pensões para os velhos, uma lição à boa maneira salazarista. Essa ideia de lição, tendo surgido com a crise, não é nova e filia-se na corrente pangermanista que emergiu com a vitória germânica na guerra franco-prussiana de 1870, e que baseava a nação não numa deliberação consciente e num projeto coletivo que o tempo foi construindo ao longo de uma experiência comum, mas numa ideologia biológica e irracional aplicada ao campo político. É uma aberração que, mesmo sem o saberem, os adversários de Costa, se unam ao campo dos adversários do PS, não apenas do PS, mas da esquerda e até mesmo do projeto europeu em geral.

Outro grande erro do reduto segurista é confundir a autocrítica do PS com alinhamento acrítico não só com os adversários do PS, mas com as ideologias que o PS combate. Na verdade, atribuir a Portugal a culpa da crise de 2007 é o mesmo que dizer que Portugal e os Povos do Sul foram atingidos, merecidamente, por causa de males que cometeram e que devem expiar. É ideologicamente intolerável, social e economicamente insustentável, e monetariamente, quanto aos princípios do euro, a rendição perante a imposição de uma moeda que, enquanto não for reformada, não serve nem o interesse português nem o interesse da Europa, visto que não pode haver Europa com a dispensa de vastas componentes do seu território, que vão da Península à Irlanda, à Grécia e inclui a península itálica e a própria França, ou seja, o coração do projeto europeu.

Finalmente, o mais desagradável! Como classificar, do ponto de vista da transparência política e da ética republicana, que se tenha pactuado com todos os males que se propala agora, durante uma década, obnubilando e escondendo do povo tudo o que acham que tinha de ser dito, por mero cálculo político? É uma atitude sem dimensão ética e grandeza épica. Quando muito, do grotesco da narrativa picaresca! Não é a disputa no PS que me move, mas a subversão da Política. É isto que contribui para o descrédito do sistema político! E só mudando estas atitudes, conseguimos! “C’est dommage”!