Parece querer preparar-se o terreno para a imposição do voto obrigatório Tão previsível como os votos de pesar político que lhe seguiram, a taxa de abstenção nas eleições europeias em Portugal atingiu um novo máximo, uns reveladores 66% de portugueses que não exerceram o seu direito de voto. Amplamente dissecada a sua natureza, recorrentemente atribuída à ausência de consciência cívica ou falta de sentido democrático dos portugueses, parece querer preparar-se o terreno para a imposição do voto obrigatório como única solução para o problema. Mas será mesmo assim? Estarão os portugueses de tal forma apartados de Portugal, que terão de ser arrebanhados para decidirem o seu futuro? Regressando à participação nas eleições europeias, uma análise sumária do índice de abstenção noutros países-membros – Polónia (77%); Eslováquia (87%); Luxemburgo (10%); Bélgica (10%) – fornece-nos indicadores importantes. Em primeiro lugar, a elevada taxa de abstenção não é, obviamente, exclusiva a Portugal, e em segundo, a participação dos eleitores é directamente proporcional à influência que o seu país tem junto dos centros de decisão europeus. Como já se escreveu amiúde, o problema não é a Europa, é a União Europeia, materializado no impasse do projecto de construção europeu e na dificuldade em cultivar um verdadeiro espírito de cidadania europeia. A elevada taxa de abstenção, acompanhada por uma campanha eleitoral travestida de aquecimento para as eleições legislativas, encerram em si a confirmação – e o paradoxo – de que é aos parlamentos nacionais que os cidadãos reconhecem a legitimidade para a defesa dos seus interesses na União Europeia. Mais do que um barómetro de participação cívica, a exígua participação eleitoral é, a montante, reflexo do distanciamento burocrático entre a União e os seus cidadãos e, a jusante, produto de uma campanha eleitoral vazia de conteúdo, incapaz de atingir o seu principal objectivo – esclarecer as pessoas. João Paulo Marques

Parece querer preparar-se o terreno para a imposição do voto obrigatório

Tão previsível como os votos de pesar político que lhe seguiram, a taxa de abstenção nas eleições europeias em Portugal atingiu um novo máximo, uns reveladores 66% de portugueses que não exerceram o seu direito de voto. Amplamente dissecada a sua natureza, recorrentemente atribuída à ausência de consciência cívica ou falta de sentido democrático dos portugueses, parece querer preparar-se o terreno para a imposição do voto obrigatório como única solução para o problema. Mas será mesmo assim? Estarão os portugueses de tal forma apartados de Portugal, que terão de ser arrebanhados para decidirem o seu futuro? Regressando à participação nas eleições europeias, uma análise sumária do índice de abstenção noutros países-membros – Polónia (77%); Eslováquia (87%); Luxemburgo (10%); Bélgica (10%) – fornece-nos indicadores importantes. Em primeiro lugar, a elevada taxa de abstenção não é, obviamente, exclusiva a Portugal, e em segundo, a participação dos eleitores é directamente proporcional à influência que o seu país tem junto dos centros de decisão europeus. Como já se escreveu amiúde, o problema não é a Europa, é a União Europeia, materializado no impasse do projecto de construção europeu e na dificuldade em cultivar um verdadeiro espírito de cidadania europeia. A elevada taxa de abstenção, acompanhada por uma campanha eleitoral travestida de aquecimento para as eleições legislativas, encerram em si a confirmação – e o paradoxo – de que é aos parlamentos nacionais que os cidadãos reconhecem a legitimidade para a defesa dos seus interesses na União Europeia. Mais do que um barómetro de participação cívica, a exígua participação eleitoral é, a montante, reflexo do distanciamento burocrático entre a União e os seus cidadãos e, a jusante, produto de uma campanha eleitoral vazia de conteúdo, incapaz de atingir o seu principal objectivo – esclarecer as pessoas.

João Paulo Marques