1. Como sempre acontece a seguir a cada acto eleitoral todos fazem a leitura mais conveniente, sem usar a palavra certa para traduzir a justa medida dos resultados. É assim que a derrota da coligação PSD/CDS se transforma em resultado ‘historicamente baixo’, ‘claramente insatisfatório’, ‘aquém das expectativas’. Mas, na encenação de Passos Coelho, nada que não se resolva com um ‘afinar de comunicação’, mais tempo ‘para receber pessoas e atender telefonemas’. Seria cómico, se não fosse diabólico e perverso.
Já para o PS, que conseguiu apenas mais 3.7 %, 123 000 votos, o resultado foi ‘uma grande vitória’, a exigir demissão do governo! Na verdade, creio que os resultados mostram que o PS, que tinha todas as condições para capitalizar a grande derrota da direita, não conseguiu dar ao país a confiança suficiente para uma alternativa sólida de estratégia e projecto. Um discurso enrolado, sem alento nem ânimo, transmitiu falta de convicção e credibilidade. Como é que se explica que, em plena campanha, em vez de tomar posição clara sobre o Pacto orçamental, as instituições europeias e a situação de submissão do país, o PS apresente 80 medidas de um programa de governo? Queria uma espécie de ensaio para as legislativas do próximo ano? Saiu-se mal, a menos que o seu objectivo se centre num governo de bloco central!
A que propósito é que, face à contestação, avance para eleições primárias para a escolha do candidato do partido para primeiro -ministro, quando aquilo que está em cima da mesa é a própria situação do PS? É isso que preocupa o país; o país real, não o país partidário – não perceber que estas entidades não são coincidentes é ver a árvore, mas ficar completamente perdido na floresta.
Das duas, uma: ou eu já não percebo nada e a política tem hoje pressupostos ininteligíveis, ou nada disto está certo e é, apenas, mais uma acha para a degenerescência dos partidos a justificar, em muito, o descrédito e a alta abstenção.
Sou mais crítica com o PS que com o seu adversário directo? Sou! Porque deste eu só espero aquilo que ele é e que tem mostrado, enquanto que do PS quero uma postura diferente, um partido virado para os valores e princípios da democracia, da solidariedade, da justiça, do apoio aos mais frágeis. Do combate à corrupção e à falcatrua. Do Estado de direito.
Somos sempre mais exigentes com os que nos estão mais próximos – nem que seja, apenas, teoricamente mais próximos.
2. Em termos europeus, os verdadeiros reflexos e consequências das eleições virão mais ao de cima quando se começarem a evidenciar na actividade e decisões do parlamento. Para já, os resultados acabaram por revelar o quanto os países e a própria Europa mudaram nestes últimos anos em que campeou não a política de rigor, coesão e solidariedade, mas uma política cega de austeridade e castigo em particular das economias mais frágeis e que, em simultâneo, destrói a democracia e abre caminho à extrema-direita, aos nacionalismos e à xenofobia: enquanto o Aurora Dourada, que defende o uso de minas terrestres para fechar fronteiras à imigração ilegal, sobe para terceiro lugar na Grécia, em França ganha a Frente Nacional, ‘apesar’ de Le Pen (antigo líder e pai da actual dirigente) defender o uso de um vírus mortal – o ébola – contra imigrantes. Se isto não é a apologia de actos de guerra, digam-me o que é!
A União Europeia desintegra-se. O projecto europeu que pareceu, durante alguns anos, ser capaz de manter uma situação de relativa paz e estar a ser conduzido para aproximar patamares de desenvolvimento e qualidade de vida submergiu, totalmente condicionado à estratégia dos grandes grupos financeiros e aos seus agentes nos diversos governos, com a Alemanha à cabeça.
Tal como foi imaginada pelos seus fundadores, esta Europa acabou. Espero que, mais cedo do que tarde, os povos deste velho continente compreendam a situação em que estamos, saibam lutar pela democracia e pela justiça e possam repor os valores civilizacionais agora ameaçados. Caso contrário, o que se avizinha é perigoso, muito perigoso.
Violante Saramago Matos