A Nova Caledónia é um arquipélago francês do Pacífico com 260 mil habitantes e uma autonomia semelhante à da Madeira, com Assembleia própria e alguns sentimentos independentistas que a tornam um “case study” sobre os processos políticos autonómicos.
Foi descoberta pelo Capitão Cook, em 1774, e a colonização europeia iniciou-se em 1853, traduzida no catolicismo, na língua e cultura francesas e no desenvolvimento económico, se bem que restrito à população francófona.
Existem três etnias na Caledónia: os kanakes, autóctones do pacífico, independentistas, representando 40% da população; os europeus e seus descendentes (conhecidos como caldoques), orgulhosamente franceses; e uma minoria de asiáticos de várias origens.
A II Guerra Mundial foi devastadora mas, anacronicamente, foi uma “benesse” para os caledónios, pois, ao ser poupada aos combates mas ter acolhido um milhão de soldados americanos e neozelandeses, beneficiaram de estradas, portos, hospitais e outras infra-estruturas. Mais importante, atenuou a natureza racial da colonização caldoque, levando à dignificação política dos kanakes que, em 1953, adquiriram a plena cidadania francesa e o direito ao voto.
Infelizmente, a dignificação económica e cultural tardou. O desemprego grassa entre os jovens kanakes, muitos sem educação ou perspectivas de vida profícua, o que, associado ao subliminar racismo, exacerbou os ímpetos independentistas, terminando com o motim armado de 1988, em que morreram 6 gendarmes e os 19 insurgentes, situação bem ilustrada no filme Rebellion de Mathieu Kassovitz, de 2011.
Muitas vezes o distanciamento traz ponderação, e assim aconteceu quando Paris, que dista 16.730 Km da sua autonomia, resolveu intervir pela mão do então primeiro-ministro Lionel Jospin, negociando (impondo) o Acordo de Nouméa, em 1998, que implica respeito pela cultura kanake e um “petit geste” aos nacionalistas, desfraldando a bandeira caledónia ao lado da francesa.
A França envia também 450 milhões de euros anuais (o dobro da Madeira), mais infra-estruturas e oportunidades económicas. Apesar do turismo, agricultura e do níquel (é o 4º exportador deste minério), a Nova Caledónia, tal como a Madeira, não é financeiramente auto-sustentável.
De Paris veio também a obrigação de referendar a independência do território em 2018, mas nas eleições regionais do passado 12 de Maio, os caledónios elegeram a presidente anti-independentista Cynthia Ligeard, vincando, sem margem para dúvidas, os laços com a França.
A longínqua Caledónia não quer a independência, pois ela significaria perder o dinheiro da República Francesa, passar a pagar a segurança interna, a defesa, a justiça, a representação externa e o ensino superior. Significa perder voz no mundo, significa eventualmente dividir famílias e perder oportunidades económicas.
A independência significa, talvez, ficar ao sabor de políticos que se perpetuam no poder e aprovam leis de equidade duvidosa. Nas repúblicas (francesa e portuguesa), o povo tem exigido rotatividade política e o sábio clima de tolerância republicana impede as mais exóticas leis “tropicais”. Vive la France! Viva Portugal! Viva a Madeira!, sabiamente autonómica, como defende o CDS.
Mário Pereira