À noite, sem o saber, consegui o que queria. Venci o medo de morrer, a sensação de peso, de asfixia e comecei, com a velocidade de um cometa, a viajar entre as estrelas… Avançar nessa calma imensa, onde as grandes massas planetárias e os astros incandescentes se movem de uma forma ordenada, sabendo-me invulnerável, descarnado, forma pura e consciente, foi uma experiência inesquecível. É difícil explicar isto por palavras: de certo modo o cosmo encerrava-me, como uma ostra a sua pérola, como se eu fosse algo precioso; cuidava-me como uma chama que não se não devia apagar; eu representava a consciência de que é essa matéria tinha demorado milhões de anos a criar. O cosmo era a minha mãe a murmurar uma canção de embalar para me fazer crescer. As palavras que eu podia pronunciar não eram minhas, mas sim a voz desses astros. O sentimento de flutuar num espaço infinito, rodeado pelo seu amor total, fez-me despertar repleto de felicidade. Antes de sabermos que podemos sonhar lúcido, essa actividade não se coloca. Uma vez que o tema nos é revelado, começamos, primeiro lentamente e depois cada vez com mais frequência, a pensar nele durante o dia e a prepararmo-nos para a noite. O sonhador tem memória, recorda-se do que se propõe durante a vigília e é muito possível que o realize. Fui pouco a pouco, com paciência inesgotável, durante anos, conquistando o mundo onírico. Não dou ao termo « conquistar » o sentido de ganhar uma batalha ou um território. Conquistar, para mim, é viver o mundo dos sonhos na sua plenitude, que não tem fim. Nesta conquista apresentam-se dificuldades, e também armadilhas, onde se pode cair e ficar ali durante anos sem avançar. Declaram -se períodos de nada, onde o inconsciente se recusa a oferecer-nos a lucidez onírica. Sonhamos sem parar durante a noite, e despertamos sem nos recordarmos de nada. Paciência. Fé. De repente, como uma flor que se abre, encontramo-nos outra vez lúcidos a viver no outro mundo. Estes sonhos ensinam-nos a que nível chegámos de consciência , dão-nos alegria de viver. Primeiro, tive que vencer os meus pesadelos. Os meus sonhos estavam povoados de ameaças, de sombras, de perseguições, de factos e objectos asquerosos, de relações ambíguas, que me excitavam ao mesmo tempo que me culpabilizavam. Aí era um indivíduo inferior ao nível de consciência no mundo real, capaz de realizar acções que na vigília jamais me permitiria. Repeti-me muitas vezes, como uma espécie de litania: « Sou eu quem sonha, tal como me conheço acordado, e não uma criança perversa e vulnerável. Os sonhos sucedem em mim, são parte de mim. Tudo aquilo que parece, sou eu mesmo. Esses monstros são aspectos meus não resolvidos. Não são meus inimigos. O inconsciente é meu aliado. Devo confrontar-me com as imagens terríveis e transformá-las.» Tinha frequentemente o mesmo pesadelo: estava num deserto e surgia no horizonte, como uma imensa nuvem de negatividade, um ente psíquico decidido a destruir-me. Acordava a gritar e encharcado em suor. Rapidamente me cansei desta fuga indigna e decidi oferecer-me em sacrifício. No apogeu do sonho, num estado de terror lúcido disse: « Já basta, vou querer deixar de despertar! Abominação, destrói-me! » O ente aproximou-se, ameaçador. Permaneci quieto, calmo. Então, essa enorme ameaça dissolveu-se. Compreendi que era eu mesmo quem alimentava os meus terrores. Fiquei a saber que aquilo que nos atemoriza perde toda a sua força no momento em que deixamos de combater. Comecei um longo período em que, cada vez que sonhava, em vez de fugir e perguntava-lhes o que queriam dizer-me. Pouco a pouco, as imagens deixaram-me… Pude comprovar que, assim como todo o demónio é um anjo caído, todo o anjo é um demónio que subiu.
Renata Camacho