A turbulência que tem vindo a verificar-se no Partido Socialista, não convocando a serenidade, apela as mais das vezes a extremismos que são rejeitáveis em democracia. Mas que também ajudam a melhor conhecer-se o perfil de cada um dos intervenientes nesta pugna envolvidos. Logo, Seguro e António Costa. O primeiro reclama-se da oposição desenvolvida nos tempos difíceis que se seguiram á intervenção desenvolvida no pós chegada da troika até ao apuramento dos resultados que se seguiu ás últimas eleições europeias. Costa rejeita a paz podre de uma situação económica e social que tem constituído o legado de Seguro e insiste na necessidade de trilhar um novo caminho, um caminho de mudança. Os números são bem conhecidos: as votações com que tem sido sufragado o Partido Socialista têm vindo a degradar-se de forma progressiva ao ponto de terem chegado aos números por que se saldou o resultado das últimas eleições, que se quedaram a uma visível distancie dos resultados obtidos por Ferro Rodrigues num momento já difícil da história do PS. Não obstante isso, pode ser dito que Seguro, por muito questionável que seja o mérito da sua vitória, ganhou. E não é da melhor tradição portuguesa despedir um “leader” que acabou por ganhar! A questão não passa, contudo, por aí. Com mérito ou sem ele, Seguro tem sido a cara do Partido Socialista no pós-Socrates. Uma fase que corresponde a um momento de grandes dificuldades na vida do Partido mas em que Seguro dispôs de apoios que lhe permitiam ter podido afirmar-se. Conseguiu-o? Não, de todo. Por mais que se reclame dos mais recentes resultados eleitorais que não corresponderam a derrotas clamorosas verdade se o diga, Seguro não adregou capitalizar em seu favor as grandes dificuldades com que se confrontou o PSD no poder nunca conseguindo afirmar-se como “leader” da oposição e sobretudo como uma alternativa forte ao partido do Governo e á vitória nas próximas eleições legislativas. Isto num momento em que a maioria governativa acusa a erosão do exercício do poder, o que sempre acontece em situações que tais e acontece de forma mais acentuada em circunstancias como estas depois de três anos de intensíssimo desgaste. Daí que Mário Soares se não tenha furtado a dizer o óbvio após a vitória com sabor a muito pouco obtida nas ultimas Europeias: foi uma vitória de Pirro! Daí que no interior do Partido Socialista se exija de forma desassombrada uma nova liderança, seguros que estão de que o actual “leader” jamais conduzirá o partido a uma vitória tendo pela frente Costa. Perante a clareza desta posição sufragada neste momento por eminentes socialistas, que posição assume Seguro? A de vitimizar-se, lembrando de forma incessante a circunstancia de ter sido o vencedor das últimas legislativas e acrescentando a isso o facto de o partido agora se mostrar apetecível o que não acontecia no tempo pós Sócrates em que teve que fazer oposição com poucos apoios. Seguro poderá no limite dispor até de razões para se sentir magoado, isto sem perder de vista que a quem anda nestas vidas ao tempo em que ele anda se exige que tenha a noção de que em politica não existe gratidão. De resto, há também e sobretudo que ter a noção de que neste momento, mais do que contas internas, do que se trata é do interesse do país. Os tempos estão difíceis, sendo que a saída da “troika” não representa a carta de alforria por que alguns a tomaram. Os desafios continuam a ser muitos e as responsabilidades crescentes. Não se torna possível abrandar sob risco de podermos voltar a cair no pântano de onde vimos e onde por pouco não nos afundávamos. Mais do que nunca, é necessário uma orientação, um desígnio, um projecto, uma estratégia, um rosto com capacidade para assumir a mudança. Este é o desafio com que o país se confronta. Sendo que para o corporizar se torna necessário encontrar o arauto capaz de o assumir. A questão que ora se coloca é quem poderá ser ele. Seguro? Costa? O primeiro tem contra o facto de a nação socialista o ver já como um homem que não é capaz de arrancar com o partido, que dispôs de boas oportunidades para o fazer mas que não foi capaz do golpe de asa para tanto necessário. Costa tem outra experiência politica, desempenhou cargos de relevo na estrutura do Estado, e desempenha agora papel preponderante a nível do poder local. Foi corajoso contrariamente áquilo que tinha ocorrido havia já mais de um ano atrás quando assumiu avançar após aquilo que, pelo menos em termos de pura matemática, não poderá deixar de entender-se como uma vitória de Seguro. Alguns já o vêm como o homem providencial por que o partido esperava. As suas hostes, ao que parece, têm vindo a engrossar progressivamente. Resta saber como reagirá o Partido e os seus militantes e simpatizantes, que também serão ouvidos neste escrutínio, ao excessivo tempo de espera que Seguro impôs para que o partido se pronunciasse. Tempo de espera esse contra o qual alguns destacados socialistas já levantaram as suas vozes, reclamando. Quatro meses é muito tempo para um partido que espera por definições.
Carlos Sequeira