Filhos das cantigas de escárnio e mal dizer, em que o trovador mofa dos ridículos e das acções do personagem em termos directos e achincalhantes, está no sangue lusitano escarniar nos desaires. Portugal regressou a casa sem honra nem glória, mas o que aconteceu foi apenas futebol. E o problema é que estávamos mal habituados, depois de, durante muitos anos, o nosso momento de glória ter sido a histórica participação de Portugal no campeonato do Mundo de Inglaterra em 1966. Desde então os magriços e Eusébio eram os heróis desta tribo lusitana. Passaram-se muitos anos, até 1984, para Portugal voltar a marcar presença numa fase final, mas de uma forma pecaminosa, como foi Saltilo em 1984, no México. Bom, numa geração de que hoje sobram treinadores e comentadores (Carlos Manuel, Diamantino, Chalana e Jordão, este o mais esquecido) há uma participação brilhante no campeonato da Europa de França em 1986, mas foi preciso esperar pela chamada geração de ouro para o nosso futebol voltar a ser respeitado internacionalmente. Foi a geração de Figo, Rui Costa e companhia, mas mesmo esta, se teve uma brilhante participação no Euro 2000, pese embora o seu drástico e dramático desfecho nas meias-finais (a tal mão de Abel Xavier a valer o pénalti e golo de ouro à França de Zidane e castigos a Paulo Bento, esse mesmo, e outros tantos), ninguém se esquece o que foi o ‘mundial da Coreia/Japão, em 2002, se quisermos, com contornos muito semelhantes ao deste, agora, no Brasil. Ficamos também na fase de grupos, que acabou com João Pinto, esse mesmo, agora vice-presidente da F. P. F., ao soco ao árbitro. Pelo menos agora tudo acabou pacificamente, para além do baixar de cabeça de Pepe. Bom, veio Scolari e uma mobilização geral da população, que chegou a roçar a histeria, com as bandeiras nas janelas das casas. Scolari juntou o resto da geração de ouro, já com Rui Costa e Fernando Couto em fim de linha, aos jogadores que Mourinho levou o FC Porto aos títulos europeus (Maniche, Costinha e Deco) para um Europeu sensacional mas que não venceu (2004 em Portugal) e o excelente mundial em 2006 (4º lugar na Alemanha). Depois ficou a actual geração, muito alicerçada no Cristiano Ronaldo e, ainda, em Deco. E ficamos mal habituados e, sobretudo, convictos que, lá pelo facto de termos o melhor jogador do mundo, tínhamos tudo para ganhar tudo. Como se Ronaldo, qual cavaleiro andante, nos levasse à conquista do universo. Pura ilusão. Cristiano Ronaldo, tal como já aconteceu com Messi (veremos agora) de nada vale quando, em seu redor, não há uma verdadeira equipa. Maradona foi Maradona, e a excepção não faz a regra. Mesmo assim, só a teimosia feita burrice, consubstanciada num conservadorismo irritante, fez com que Portugal esteja, desde já, em casa. Mesmo com os 23 jogadores que Portugal levou ao Brasil, mesmo com as limitações que a equipa apresentava, nomeadamente no lastimável plano físico com que a maioria dos jogadores se apresentou no Brasil, tivesse Paulo Bento uma visão mais assertiva e, se calhar, teria a nossa selecção se qualificado alguma naturalidade para os oitavos de final. Mas, cá está, se fôssemos eliminados pela Bélgica (seria esse o nosso adversário) viriam as mesmas cantigas de escárnio e mal dizer pois, para o português mal habituado e, sobretudo, mal informado, o mínimo para Portugal, que nem um ponta de lança jeitoso tem, é a final. Por isso mesmo, maior é a ilusão. PS: O futebol é um fenómeno à escala mundial que gera paixões e emoções, arrastando multidões. Que permite juntar o doutor ao analfabeto na discussão da coisa da bola, daí a sua popularidade. Que descansem os arautos da sabedoria, o povo sabe que o futebol não resolve os seus imensos problemas, mas, pelo menos, ajuda-os a amenizar alguma da dor. Por isso mesmo, maior é a desilusão quando, afinal, a selecção estava igual a país.
Emanuel Rosa Jornalista