Há três dias atrás apareceu um tweet curioso, da autoria do Aiatola Khamenei, líder supremo do Irão. Por ocasião do Dia Mundial da Música (21 de Junho), ele, ou alguém da sua máquina publicitária, escreveu o seguinte: “Sabeis que sou contra o Ocidente, contudo o meu raciocínio confirma as qualidades positivas do mesmo, sendo um dos aspectos relevantes, o da música. É verdade que no Ocidente existe música decadente, destinada para a dança e deboche, mas desde há muito tempo existe também musica instructiva e significante. Existem alguns tipos da música ocidental que podem ser desfrutados em concerto, por pessoas sábias e transcendentais. No Ocidente, não há falta da música capaz de salvar uma nação ou conduzir grupos intelectuais para o caminho certo; o Ocidente tinha e presentemente tem essas qualidades. Em vez de utilizardes a música no percurso da decadência moral, dirigi-a para alcançar objectivos nobres; neste caso a música pode verdadeiramente ser chamada ‘santa’”.

Uma declaração inusitada, senão vejamos: depois da revolução islamita de 1979, todos os tipos da música foram banidos no Irão e os músicos foram frequentemente detidos para, já em 1996, Khamenei ter emitido uma fatwa segundo a qual a educação musical corrompe as mentes dos jovens, com a consequência de muitas escolas de música terem sido fechadas e o ensino da música para jovens com menos de dezasseis anos, banido em estabelecimentos públicos. “O ensino de qualquer tipo da música (tanto tradicional como ocidental) contraria os objectivos e os ensinamentos do Islão, independentemente da idade e nível de estudo” afirmava Khamenei. Continuava também a falar contra a promoção da música nas universidades entre 1997 e 2005, altura de relativa liberdade cultural aquando da presidência de Mohammad Khatami. E continuava a ter dúvidas mesmo quanto ao uso da música indígena iraniana, quando utilizada para contrariar a suposta “invasão cultural” do Irão pelo Ocidente.

Não é fácil de entender atitudes que promovem a isolação e inibem a coexistência cultural – uma das vertentes principais da coexistência social e política – sobretudo quando já se torna patente que, num futuro mais próximo do que possa parecer, vamo-nos ter apenas uns aos outros para lidarmos com problemas de categoria global, que continuamente se acumulam. A inclusividade e a mensagem de tolerância e aceitação, promovidas através das acções culturais e educativas, por e para jovens, na maioria dos países do mundo – tais como a ESCOLartes da nossa Região, com o seu entusiasmo contagiante – reivindicam a ideia de que todas as culturas e religiões deviam vergar-se perante o fenómeno da singularidade das nossas vidas que tão levianamente desperdiçamos na afirmação de interesses particulares e sectários.

E embora a mensagem do Aiatola tem o seu próprio mérito – afinal, temos que ser capazes de ensinar aos nossos jovens de que a superficialidade e efemeridade de uns “gagamileyjustins” não transmitem los mesmos valores civilizacionais que Bach e Mozart – dado o seu passado ambivalente, há que maravilhar-se com este momento de aparente aproximação cultural que curiosamente acontece em simultâneo com a aproximação dos interesses comuns na defesa da integridade do seu país vizinho, que está prestes a ser despedaçado pelo sectarismo: oxalá a sua abertura se mantenha permanente e franca.

Robert Andres