Severino Olim Na meia encosta do vale de Machico corre a Levada Nova, o principal canal de água de rega que serve as populações das freguesias de Machico e do Caniçal. Construída ainda nos tempos da Madeira Velha, sem recurso a orçamentos retificativos, tem sido desde essa altura, o meio de transporte de água mais utilizado para a manutenção e continuidade da agricultura nestas localidades. Actualmente, continua a prestar esse serviço a um número cada vez maior de agricultores, muitos dos quais, são vítimas de políticas insustentáveis que continuam gangrenando os pergaminhos da nossa autonomia política e administrativa. Nestas freguesias, o estado de gangrena social é de uma realidade tal que chega assumir proporções indignas a roçar os períodos da fome e da miséria social dos tempos da Madeira velha. Foram tempos sem esperança e sem futuro, aliás, os mesmos, em que se vêm confrontadas muitas destas famílias desempregadas já sem o subsídio de desemprego e sem o subsídio social.
Não obstante, a água de giro nestas localidades mais a leste da Ilha, um bem capital à produtividade de muitas parcelas de terra arável, tem vindo a ser distribuída de ano para ano com restrições inaceitáveis, deixando os regantes desamparados e com pouca cara de amigos. Ao alto deste cerco encontra-se o Instituto de Gestão da Água (IGA) com a função de fornecedor e regulador deste liquido tão importante para a sobrevivência de centenas e centenas de madeirenses que, em Machico, tem sido um parceiro com resquícios de uma noiva amuada e que utiliza um serviço pago para açoitar os agricultores destas freguesias, no que concerne, à política de distribuição de água de giro.
Um parceiro que fecha os olhos às necessidades de contratação de mais levadeiros, num meio onde o desemprego é galopante, não pode merecer por parte destes agricultores nem pela população em geral aplausos pelas suas políticas de gestão de água. Políticas que, no entanto, resultam de um serviço que de ano para ano torna-se, cada vez mais caro, cujas contrapartidas ficam muito aquém do esperado. Na verdade, são os regantes de idades avançadas que em situações de perda ou de falta de água desempenham as tarefas de reposição, missão da competência estritamente dos levadeiros. Efectivamente é um serviço da responsabilidade da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais, um parceiro agrícola muito redutor, que impõe a estes agricultores cortes em 50% no número de horas de rega quando as necessidades de regadio, nestes últimos tempos, são de maior exigência. Julgo que em 2013, por sua decisão, o caudal autorizado e arrancado aos tornadores da levada foi de uma redução significativa, assim como a do ano em curso.
Desta forma, não há tolerância nem compreensão que resista perante este cerco com a água de giro aos agricultores das zonas altas da freguesia de Machico. As soluções planeadas há anos passavam pelo funcionamento da ETAR localizada, vergonhosamente, a leste da Baía e pela operacionalidade da Lagoa do Santo da Serra, há 30 anos em construção! Obras vistosas de muitos milhões mas que , infelizmente, não respondem aos objectivos para que foram projectadas: reforçar o caudal da Levada Nova e ao sistema de água de giro aos regantes de Machico e do Caniçal.