não sei se te disse do milagre que és mim. [nada de sobrenatural, suponho, não sei.] sei-te improvável na minha vida. no tempo ausente de medida. a voz, primeiro. o corpo, o grão, o tom fundo, sereno. o olhar, o primeiro. a primeira palavra. tu, das artérias à aorta. ar quente no pulsar por dentro dos dias, lentos. na demora, breve ou longa, de cada noite. em fundo os acordes nas palavras. ou o silêncio arterial. [improvável, disse. seria hoje natural declarar-te espera. nem isso sei. nunca se ouve o passo do futuro. a sua voz invisível. sabes? – nas ilhas aprende-se o corpo do eco. o som repercute. a luz é sempre reflexa. contigo em mim não sei senão a medida da luz sem tempo. a tua presença é-me inesperada. íntimo oceano.] em ti tudo é novo. contigo tudo é outro. conheço o silêncio das paredes brancas da casa como mapa que desenha a vida por vir. sei do eco inaugural. conheço a voz ecoada, coada pela luz. sei do que do futuro nos é estrangeiro, fala por aprender. somos sempre cegos. conheço o lugar vazio como corpo anónimo. o mapa é papel apenas, sem bússola. mudo. aprende-se o amanhecer das casas. a conversa involuntária do soalho. o silêncio. há o som do violoncelo ampliado na partitura do teu corpo. quatro cordas, recordas. sabes de cor o gesto da mão. a memória da música habita a casa. tu acordas. em acordo. porque conhecemos a morte coágulo a coágulo, dedicamos-lhe todas as palavras. o silêncio inteiro. é presente por todo o futuro. e maiores são os dias chegados. sei das amoras na boca. do calor do verão (por celebrar. um dia, uma estação e outra). sei dos pés na erva. da uva madura. da pele aquecida. dos dias brancos. do mergulho. sei-te liberdade. sei-te onda em que se voa sem o peso da água. largo fluido líquido, sem corpo visível. [gostava de te ter já contado que ontem me aconteceu um tremor de terra. um anfiteatro e o som de cordas. em fundo o horizonte, tudo justo. uma voz sem idade, livre. a música a reverberar por todos os meus sentidos. contigo.] sem fenda nem futuro, agora. sei a cor dos teus olhos, sobretudo no escuro. é o dia mais longo do ano. acredito. não sei outra medida de tempo, da vida. a quatro mãos.
Diana Pimentel Docente universitária