A hecatombe Espanhola no Mundial do Brasil tem sido encarada como o final de um ciclo de uma equipa que conquistou tudo o que havia para conquistar, e que é tida por muitos como a melhor Selecção Nacional de toda a história do futebol mundial. Do meu ponto de vista, o desastre Espanhol ficou a dever-se, essencialmente, à “orfandade” pós-Guardiola dos jogadores do Barcelona (que constituíam o verdadeiro tronco/motor da selecção, e também afectou o próprio clube), e ao “estigma” de Casillas, que, ao contrário do que muitos consideravam, nunca foi verdadeiramente um grande guarda-redes. De resto, o facto de os clubes espanhóis terem ganho todas as competições europeias desta época, de existirem inúmeros jogadores jovens de qualidade, quer na actual selecção nacional, quer nos clubes, e de a Espanha apresentar um projecto desportivo com vitórias em muitas outras modalidades, levam a crer que estará em causa uma questão pontual/transitória. Seja como for, e porque com os males dos outros, maxime da Espanha, podemos nós bem, o que dizer/pensar acercada nossa Selecção? Independentemente dos resultados dos dois próximos jogos qual será o seu futuro? Começando pelo presente, e descontando eventuais erros que possam ter existido na preparação para este Mundial, bem como o “azar” de algumas lesões de jogadores hoje insubstituíveis (e.g. Fábio Coentrão), parece-me evidente que não estamos nem perante uma grande equipa, nem perante uma equipa para o futuro. Com efeito, e como Queiroz e Mourinho admitiram recentemente, o único factor de diferenciação desta equipa – que, em abono da verdade, até tem sido muito bem “espremida” por Paulo Bento – é Cristiano Ronaldo. Quando o mesmo está bem, conseguimos fazer “coisas bonitas”, quando o mesmo não rende, pautamo-nos pela (quase) mediocridade. Em concreto, este plantel compara muito mal com os vários que o antecederam, designadamente, e a título de exemplo, com o verdadeiro “elenco de luxo” – ainda para mais, alicerçado na espinha dorsal de uma equipa que acabara de vencer a Liga dos Campeões – que nos levou à final do Euro 2004. Por outro lado, a elevada média de idades do actual plantel, permite afirmar/concluir que a grande maioria destes jogadores não estarão presentes, pelo menos, no próximo Mundial, o que nos leva, forçosamente, a ter que pensar em alternativas. Ora, salvo melhor opinião, as perspectivas futuras não são muito animadoras. Se não vejamos: Exceptuando o Sporting, nenhum dos restantes “grandes” clubes portugueses tem apostado seriamente na formação e/ou em jogadores portugueses. Encontrar um jogador português que seja, ou possa vir a ser, titular do Benfica e/ou do Porto, e por essa via aceder à Selecção Nacional, é hoje tão difícil como encontrar uma agulha num palheiro. Por outro lado, desde há muitos anos para cá que as nossas selecções jovens deixarem de registar os sucessos, bem como de denotar a existência do projecto, que levaram à emergência das “gerações de ouro” de Carlos Queiroz, e que foram aquelas que verdadeiramente contribuíram quer para a inspiração das actuais (e ganharam algo a nível de Selecção), quer para a elevação do futebol português a um patamar superior. Assim, e porque a naturalização dos “contentores” de jogadores estrangeiros que os clubes nacionais importam, não será, certamente, a solução, no futuro próximo não se perspectiva a existência (i) de uma nova “fornada” de jogadores nacionais de qualidade acima da média, (ii) de um projecto sustentado de formação de jogadores jovens e (iii) de um clube cujos jogadores possam vir a constituir o “esqueleto” da equipa das quinas. E para ajudar à “festa”, o que dizer das cenas “canalhas” a que temos assistido na Liga Portuguesa de Futebol Profissional? Como poderá o futebol português evoluir e desenvolver uma estratégia para o futuro num ambiente de “guerra civil” entre os clubes profissionais, e entre este se a entidade/pessoa que os representa, e deveria aglutinar? Dito isto, e porque, à boa maneira Portuguesa, o presente é que interessa, vamos é ganhar os dois próximos jogos!! O futuro logo se verá, e será o que Deus quiser… * Advogado da SRS Advogados

Gonçalo Maia Camelo *