Esta semana foram os madeirenses mais uma vez brindados com um raspanete do presidente do Governo Regional. Este povo que já foi superior, que já foi inteligente e lutador, está a perder qualidades à razão da perda de votos no presidente. Agora que o reinado se aproxima do fim, esse mesmo povo vai descendo de categoria. E o que era superior e inteligente e lutador, em poucos anos passou a um bando de ingratos, patas rapadas e reles bêbedos que só davam trabalho à noite nos centros de saúde. O que disse o presidente foi que nove em cada dez atendimentos nas urgências dos centros de saúde de Santana, Porto Moniz e Ribeira Brava, não eram por dores a sério, nem feridas, nem sequer ‘males’ que davam às pessoas. Eram ressacas. Pensando bem, é capaz de ter alguma lógica o raciocínio do presidente. Tem algum fundo de verdade esta sentença inesperadamente declarada enquanto inaugurava umas ambulâncias ao mesmo tempo que o padre as benzia. Se pensarmos bem, só uma sociedade entorpecida pelo vinho é capaz de aguentar tanta humilhação ao longo de tantos anos. Só um povo que se mete nos copos de manhã à noite e por dias a fio, é que aceita ser assim espezinhado, gozado, maltratado. Talvez envergonhado do disparate que produziu, o presidente voltou a fazer o que melhor sabia fazer quando ainda era presidente: o salto para a frente. Podia ser com duras críticas à maçonaria, aos políticos de Lisboa, ao Tribunal de Contas, talvez até voltasse a falar da revisão constitucional. Mas não! Desta vez anunciou algo em grande, algo de que ninguém estava à espera e que vai fazer parar o País: a Região já fez as continhas todas, desde os tempos em que a Madeira era apenas madeira. E o saldo, como é óbvio, é-nos favorável. Esses cubanos colonialistas ainda nos devem dinheiro, portanto toca a mandar tudo o que tiverem enquanto esta geração de governantes visionários por cá estiver. E atenção que a conta não é uma brincadeira qualquer: são 10 mil páginas divididas por 13 volumes em jeito de rol que é para assustar o Terreiro do Paço. Tomem lá que é para aprender. Se isto fosse a brincar, até tinha a sua piada. Se fosse uma coisa de paróquia para paróquia até seria divertido. Se fosse uma disputa entre o presidente do clube de cima contra o clube de baixo, seria um momento de puro lazer. Mas não é. Isto é a governação que temos.

Nesta altura, talvez seja importante lembrar que o governo que inaugura ambulâncias, é o mesmo que fecha os centros de saúde como quem fecha o bar mais cedo para não aturar bebedeiras. O governo que paga 13 volumes com 10 mil páginas em contas de sumir, é o mesmo que espatifa 11 mil euros por dia num jornal da Igreja que deve envergonhar o católico menos crente. O governo que chama bêbedos a 90 por cento dos que foram às urgências que mandou fechar, é o mesmo que fez da cultura do vinho e da espetada uma marca de sucesso. A verdade é que na espuma dos dias o povo superior, inteligente e lutador ou os ingratos, patas rapadas e bêbedos não passam de motivos de entretenimento. São um disfarce para ocultar esta longa bebedeira colectiva que afectou pelo menos mais de metade dos madeirenses, incluindo os que não bebem. Só nos últimos anos, quando foi preciso deitar contas à vida, é que entramos na fase da ressaca, que começamos a perceber o logro e alguns ensaiam a ameaça de que não voltam a beber do mesmo. Já é tarde. Um dia vamos concluir que os madeirenses e o governo viveram durante grande parte da Madeira nova aquilo que o Presidente da República viveu durante menos de meia hora no 10 de Junho: uma “reacção vagal”. Desse tempo em que Cavaco foi amparado e levado em ombros, não fica nada. Deste tempo em que a maioria dos madeirenses arrasta os pés, também não. Tavez apenas uma ideia vaga do que é uma longa “reaccão vagal”.