A diocese do Funchal celebra quinhentos anos de existência.

Normalmente o momento, por ser muito significativo, não exigiria sublinhados porque os media dariam dele expressiva referência e os poderes públicos também se associariam a tão importante data.

Assisti com gáudio a muitas das comemorações e destaco a sua dignidade e pujança honrando a nossa gente e o trabalho secular que muitos cristãos nascidos ou crescidos nestas ilhas deram ao Mundo e aos povos. Quem assistiu à Eucaristia do dia 12 de Junho, às palavras sábias e sensatas de D. Manuel Clemente, à missa na igreja matriz de Machico, ao concerto no dia 13 e à assembleia jubilar de Domingo (com a relevante homilia do Cardeal Filloni, representante do papa) não pode ter ficado indiferente e insensível ao que significaram e ao que nos podem ajudar.

Restam ainda dois grandes momentos que tenho esperança de poder assistir. Um será o Congresso de Setembro com grandes vultos da cultura mundial e onde se procurará marcar a cultura da Região e a importância da Diocese na missão evangélica e na aproximação dos povos.

O outro é a inauguração do monumento aos 500 anos. A cidade do Funchal não foi ainda capaz de implantar o monumento que encomendou para comemorar o meio milénio de cidade. Tenho pena que assim seja porque é importante associar as datas à beleza estética e simbólica de uma escultura. Espero que a Diocese consiga inaugurar esse monumento que testemunhe o que foi este caminho jubilar. Estranho é ter ouvido dizer que haja entidades, como a Câmara Municipal do Funchal, que se tenha recusado a ajudar a pagar a base do Monumento, por uma argumentação que, a ser verdade, é, no mínimo, uma barbaridade. Por vezes, a mesquinhez de alguns arautos dos tempos modernos que marcam o seu destino por rancores ou ódios perfeitamente incompreensíveis acaba por triunfar. Quem ficará a perder é naturalmente esse propositado alheamento e distanciamento, lembrando tempos jacobinos de nefastas consequências.

Não deixa de ser também estranha uma visão sectária que declarações políticas ou “quase-políticas” trouxeram à tona de água. Livre como gosto de ser, não deixo em silêncio a minha oposição a interpretações que amarram a história da Igreja madeirense ao poder económico dominante de séculos nestas ilhas. Esquecer as inúmeras vezes em que a Igreja foi a voz e o único apoio de todos quantos necessitavam é um ultraje à memória colectiva de todos os madeirenses. Que seria da qualidade de vida e das vivências sociais na Madeira e Porto Santo, sem a Igreja diocesana e os milhares de sacerdotes, consagrados ou leigos que se dedicaram à causa do bem comum?

Por último, uma referência à comunicação social, normalmente atenta às festividades e comemorações. Porque não gosto de deixar as coisas sem nome, devo confessar que me entristeceu que o próprio Diário de Noticias não tivesse feito relato das comemorações que ocorreram no próprio dia em que se celebrava a Bula instituidora e tivesse relegado para um segundo plano nas suas manchetes uma assembleia dominical onde estiveram dezenas de milhares de madeirenses com a presença de um dos maiores representantes da Igreja Católica. Sei que o catolicismo é uma confissão religiosa e que o Estado é laico - como alguns gostam de repetir - mas isso não pode fazer esquecer a importância histórica, social e humana que a igreja católica representou na Madeira.

Valorizar os cinco séculos não é apenas uma profissão de fé para os crentes mas é também um justo tributo de todos à história de uma população que fez chegar a tanto lado um modo de vida e uma cultura que nos deve envaidecer.

Ricardo Vieira