Em Timor-Leste algumas pessoas têm o costume colocar o apelido do padrinho aos afilhados. Por isso, encontramos irmãos com apelidos diferentes. No caso do meu afilhado timorense, João Gonçalves, além do apelido, ficou também com o meu primeiro nome. Ele nasceu em 2002, ano da independência. Tem atualmente 12 anos.
Tragédia da família O meu compadre, Florindo da Costa, tinha 19 anos quando os seus pais e os nove irmãos morreram todos, no mesmo dia, num bombardeamento pela aviação indonésia, em 1979, na aldeia de Manehat, onde viviam. Esta localidade fica na montanha, próximo de Natarbora, a cerca de 144 km a sul de Dili. No dia do ataque, o meu compadre, por sorte, não estava na aldeia. Foi o único sobrevivente na família.
Florindo da Costa colaborou ativamente com a resistência e foi preso por várias vezes. Além do drama de Manehat, teve de refugiar-se nas montanhas, em 1999. A sua casa foi completamente queimada pelos milícias, como o foram quase todas as casas, na altura. Hoje, Florindo da Costa é reconhecido como um dos “heróis veteranos da resistência”.
Convite para padrinho Em 2002 eu falei com o Florindo, por várias vezes, por causa do massacre de Manehat. Foram conversas difíceis, interrompidas pela emoção: o facto de se confrontar com todos os familiares mortos, além da casa ter desaparecido, é um drama difícil de se imaginar e mais difícil de se compreender.
Quando conversámos (em 2002), o primeiro filho do Florindo estava por baptizar, convidou-me para padrinho e eu aceitei. O batizado realizou-se em Becora, em agosto de 2002. Entretanto, após 2005, regressei a Portugal e, a certa altura, com alteração de telefone e moradas, perdemos o contacto.
Liberdade de Imprensa Foi junto a esta igreja de Becora que, em setembro de 1999, foi assassinado o jornalista holandês SanderThoenes, quando se dirigia para fazer uma reportagem. Por este motivo, à estrada foi dado o nome «Rua da Liberdade de Imprensa», uma das mais compridas ruas de Dili. Junto ao muro da igreja uma placa relembra este assassinato.
Reencontro No passado sábado, 31 de maio de 2014, eu fui a Becora procurar o meu afilhado. A zona está diferente porque, entretanto, as casas foram recuperadas ou construídas de novo e algumas árvores foram cortadas. Depois de eu ter andado às voltas, a pé, durante cerca de duas horas, por vários locais, finalmente, encontrei o meu afilhado junto com os pais e outros três irmãos. É uma família simples, mas muito digna. Ficaram muito felizes e eu também. Foi um reencontro inesquecível. *) Assessor do Ministério da Justiça de Timor-Leste.
João Luís Gonçalves *