As histórias infantis falam dos maus, que são sempre mesmos maus, e dos bons, que só fazem coisas boas e lutam pelo bem enfrentando com coragem o mal e os maus. Na infância esta visão do mundo é muito importante do ponto de vista psicológico e moral porque ajuda a compreender a vida e permite, progressivamente, partir para a análise da realidade complexa. À medida que crescemos, compreendemos que os bons têm altos e baixos e que os maus podem inverter o caminho e ser capazes de contribuir para o bem comum.
Lembrei-me disto por causa do calendário de festas de Junho: do primeiro ao último dia há pretextos para celebrações, tantas quanto as escolhas para as assinalar. Alguns, muito preocupados com o mundo em que vivemos (e com razão!), criticam a superficialidade e alienação das festas, outros, empenhados em usufruir da alegria (e com razão!) aproveitam o instante. A vida, para alguns, parece só ter uma opção: ou branco ou preto, “ou isto ou aquilo”. Insiste-se numa visão simplista e pobre da existência, numa perspectiva maniqueísta em que de um lado estão os nossos, o bem, e do outro, o mal, os outros. Mas a vida não é um conto de fadas e, por isso, podemos perceber que entre os violentos e hipócritas críticos da realização do Mundial no Brasil estão os mais perigosos inimigos da Democracia, eles querem lá saber dos problemas do serviço público de saúde, da falta de escolas ou dos atropelos aos direitos das minorias, podem até usar esses argumentos mas o seu objectivo é, unicamente, confundir e desestabilizar. Também percebemos que há um povo que vibra e se une em torno do desporto-rei, um povo a quem, tal como ao nosso, falta tanta coisa para que se cumpra o soberano direito à felicidade mas que usa a festa para recuperar a força que legitima as exigências por mais e melhores escolas para todos, hospitais e serviços de saúde públicos de qualidade, tolerância, respeito e justiça. A festa está cheia de contradições? Pois está! Os responsáveis pela organização, sobretudo a FIFA, escondem interesses perversos? Pois escondem e é urgente denunciá-los. Mas vamos lá gozar o instante e celebrar juntos, aquilo que nos une para que encontremos pontes naquilo que nos divide. Ficam alguns versos do magnífico poema de Cecília Meireles: “(…)Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo.../e vivo escolhendo o dia inteiro!/Não sei se brinco, não sei se estudo,/se saio correndo ou fico tranquilo.(…)”.
Isabel Cardoso