Aires Gameiro Após as celebrações solenes de memória dos 500 anos da criação da diocese do Funchal vem a questão espontânea: e agora? Os antecessores, cumpriram até hoje, na alegria e na dor, o testemunho de uma identidade única e universal de grandes convicções que nos legaram. Na Ordem de Cristo foi enxertada a diocese de além mar em 1514 para continuar a Missão com a Cruz de Cristo a guiar. E no Monte e na Sé, a Mãe junto à cruz. Houve tempos de júbilo e de cruz, de luz e de sombras, construção de dezenas de igrejas, capelas e solares, e inundações destrutivas em terra e naufrágios no mar. Inovações agrícolas e comerciais, e açambarcamento de terrenos para poucos; e simples servos perpétuos que a trabalhavam sem poder possuir um metro de terra. Houve festas religiosas e epidemias de morte; passaram pela Madeira e dela partiram missionários para todas as terras de além mar. Passaram também os piratas que saquearam, mataram e levaram o fruto do trabalho de muitos madeirenses.
De um lado e do outro vieram barcos e homens empreendedores; e levaram bens exportados. Vieram também escravos da África, página triste de que pouco se fala e estuda, que deixou modos de ser aqui e ali até hoje. Vieram bispos fiéis a Roma para fazer a Igreja católica sediada na Madeira.
Cedo vieram também os não católicos do norte da Europa, associados e apoiados por comerciantes, armadores, e esboçaram outra identidade para a Madeira: anglicana, luterana, “evangélica”? A identidade, tradição e cultura católica, já consolidada, ameaçadas reagiram e defenderam-se com excessos, não dissemelhantes aos da caça aos católicos na Escócia e na Inglaterra nos séculos XVI e XVII. A cultura cristã católica do início, manteve-se e foi cultivada nos séculos seguintes. Resistiu às investidas antijesuíticas de 1759, às jacobínico-liberais dos anos 1820, dos ventos do laicismo de sopro napoleónico. Os ingleses aliados e já ocupantes de comércio e terras, com um pé na Inglaterra outro na Madeira, puseram os dois pés no solo madeirense em 1802 e 1807.
No comércio açucareiro e vinícola decidiam por vezes mais os de fora que os de dentro, chegando a ser impedido o cultivo de cereais porque a terra era escassa e ficavam os madeirenses com fome de pão. Manter a identidade continuou a ser difícil ao longo do séc. XIX e primeiros anos do séc. XX.
O golpe republicano-maçónico associado aos aliados jacobinos juraram mudá-la cortando muitos dos recursos identitários: liberdade religiosa, seminários, escolas, casas religiosas e algumas ligações a Roma. Apesar dos solavancos e dos embates do século XX, das guerras, revoluções e golpes de Maio de 1928, do pós Vaticano II, do Maio de 1968, do Abril de 1974, da rompante alienação secularista, contudo, a data dos 500 anos constitui um grito de júbilo: conseguimos manter a herança e multiplicá-la por mil extensões culturais de lusofonia e de evangelização! Agora entregamos o testemunho. Estas celebrações cumprem também o gesto de Elias ao atirar a capa da sua Missão de profeta para cima de Eliseu: “sabes o que te fiz”, agora a Missão é tua. E Eliseu aceitou o dom, desprendeu-se de tudo para cumprir a sua missão. E agora? A Igreja na Madeira é chamada a aceitar e desenvolver a herança da cultura e identidade cristã católica de 500 anos, para ela e para os “seus ramos” de além mar.
Uma Identidade Universal Única como o nome católico significa. A diocese do Funchal é citada a continua ser foco de memória e de Missão da Igreja católica, desde o Brasil ao Japão.