Podia ter sido um dia como qualquer outro. Mas foi já ao pôr do sol, ainda com a respiração alterada, enquanto me deslumbrava perante a tela que se desenhava à minha frente, flutuando sobre uma massa de água de um azul profundo, que me dei conta de que passava a maior parte do meu tempo consciente, num mundo paralelo. Neste mundo, extraordinariamente exigente, cruamente justo, perfeitamente objectivo, a magia acontece todos os dias. Ela exprime-se na subtileza dos tons do mar, na força da natureza mas, acima de tudo, na manifestação da necessidade intrínseca de ir mais longe, em busca da perfeição.

Na vastidão do oceano, um pé a menos e já não chegamos lá, um instante depois é já uma oportunidade perdida. Cada onda é um desafio, cada momento o mais importante. E quantas vezes falhamos! Tantas são as vezes que sentimos a água a escorrer por entre os dedos, afogados na ânsia de a reter.

Neste universo, a alegria segue de mãos dadas com a dor, quais companheiras improváveis. Já dizia Pessoa que para passar o Bojador, haveria que passar para além da dor. Ele lá sabia. Mas a dor física é passageira. Pode ser por um segundo, por um dia ou por uma vida, mas eventualmente também isso muda. Não há no entanto maior dor, do que aquela que o baixar dos braços carrega. E essa, essa dura para sempre, cravada que fica nas profundezas da alma.

É um mundo muitas vezes cruel. Sem contemplações pelas fraquezas humanas ou pela inexorável passagem do tempo. Não há nada que reverta a frieza dos números, que a altere ao sabor dos caprichos do ego. Nada!

Mas é também um espaço onde os sonhos se materializam, por mais inverosímeis que possam ser. É ali que aqueles que acreditam que podem e que trabalham para isso, que falham e erram e choram e riem tantas vezes, acabam por mudar o sentido da corrente. Começando de novo a cada sopro, as peças do puzzle encaixam-se por estranhas artes, como se o universo lhes proporcionasse aquela pequeníssima ajuda para no final, pequenos milagres acontecerem.

Tal como tudo na vida, também este mundo um dia há de extinguir-se. E nada mais ficará do que a espuma de uma onda que morreu na praia. O crepúsculo já se anuncia no horizonte, traçado nas linhas da pele, nos cabelos que perdem a cor e na cada vez mais presente consciência do passar dos anos. Os ventos do Olimpo desta feita sopram de Terras de Vera Cruz. Chegarei lá antes do pôr do sol?