Parecia uma menina. As vestes brancas, o cabelo entrançado, a inquietação na voz. Tanto trabalho até chegar àquele instante. E ali estava tudo: uma exposição fotográfica, um vídeo, um livro – “Ex-Voto”.
Lucília Monteiro, natural de Santa Cruz, é fotojornalista. Trabalha há 20 anos para a revista “Visão”. Começou, há pouco, a fazê-lo também para o semanário “Expresso”, pelo qual já passou há muito. Mas não foi jornalismo que ela revelou na sexta-feira à noite na Casa das Artes, no Porto.
Não estranhará quem lhe conhece o gosto pelos cemitérios. Elegeu os ex-votos, aquelas representações de pedaços de corpo que os fiéis “entregam” a um beato, a um santo ou a qualquer outra divindade em troca de uma graça concedida. Compreende-os como parte de um ritual religioso, quiçá em vias de desaparecer, que expressa a fragilidade humana e a força divina.
Os ex-votos assumem várias formas. Lucília deteve-se nos de cera e nos fotográficos. Interessava-lhe preservar a ideia de reprodução, que uns integram através do molde, outros através do negativo. Hoje, tudo se copia, tudo se multiplica (menos os empregos, ao que parece).
Tantas vezes, antes daquela sexta-feira 13, na Casa das Artes, se perguntou se os outros a iriam compreender. Fragmentos de corpo, em cera, sobre fundo negro? Salas de milagres, autênticos puzzles de rostos, a preto-e-branco, aremeter para doenças vencidas ou qualquer outra maravilha? Observei-a ao longe. Sim, parecia uma menina, mas é uma extraordinária mulher de origem vulcânica.
Ela quis pensar “o corpo contemporâneo, o corpo do Eu e os seus simulacros”, problematizar a necessidade humana de se representar na arte ou na religião. Ao ver o trabalho dela, eu – que passara o dia a ler, a conversar e a escrever sobre suicídios e estou com os despedimentos no “DN”, no “JN” e na TSF entalados – só conseguia pensar na fé, na necessidade de a ter, seja lá no que for.
É arte o que ela fez. O resto, o resto é vertigem.
Ana Cristina Pereira