Queria aproveitar a oportunidade para, neste momento de celebração dos 500 anos da Diocese do Funchal, dar especial relevância ao processo de vivência do tempo que passa, dos dias que pouco a pouco se vão acumulando, uns atrás dos outros, e da perspetiva sobre essa passagem.
Como todos certamente tiveram conhecimento, ao longo dos últimos dias realizaram-se diversas iniciativas e atividades do programa de celebração dos 500 anos da existência da Diocese do Funchal. Foi a primeira diocese portuguesa da Igreja Católica instituída fora do continente europeu, na sequência das viagens marítimas de descoberta que potenciaram a experiência de globalização. Criada em 12 de Junho de 1514 através da bula do Papa Leão X, esta diocese pioneira, que se estruturou no contexto da expansão portuguesa, foi erigida na capital do Arquipélago da Madeira, que viria a tornar-se uma plataforma estratégica da expansão para os mundos que então se abriam aos olhos da Europa.
De facto, esta celebração constitui uma oportunidade para, no tempo atual em que vivemos, nos confrontarmos com acontecimentos de alcance cada vez mais globalizante, sem perdermos os contornos da identidade das realidades locais ou regionais. Exige novos olhares sobre o “novo” tempo que agora se abre, cuja configuração vai sendo moldada por um tempo e por uma história presente na nossa memória.
Enquanto realidade histórica que somos, muitas vezes, o tempo corrói aquilo que considerávamos que era definitivo, certo, garantido, mas facilmente tudo se altera, desfaz ou até se perde. Por isso, convém olhar para este aniversário, 500 anos, e pensar que passou mais um ano.
Passa um ano e não regressa, vai-se embora, quantas vezes, despercebido. Vai embora e não volta. Vai embora não esquecendo momentos belos vividos com sorrisos de alegria, com olhares de satisfação e entendendo desfalecimentos, falhas e tristezas. Vai embora perdendo caminhos velhos e outros novos escolhendo, em busca constante de nova vida, de novos horizontes, de novos sonhos.
Vivemos e sonhámos mais um ano, mais um ano de vida. Mas qual é a cor da vida? O que é verdadeiramente viver? O que é viver mais um ano? São coisas difíceis de saber! Pudesse cada um de nós descrever o que sente a viver, aquilo que nos prende à vida…, viver nesta comunidade os 500 anos. Será, sem dúvida, a procura incessante de crescer, de percorrer o caminho da verdade e da autenticidade, de apreciar a beleza que existe em cada dia partilhado fraternalmente, da amizade vivida como fita de enlaçar, do sonho finalmente conquistado.
Mais um ano passou. Chegámos aos 500 anos. E que sabor ficou? É verdade, o tempo não pára, não pode parar. E não vale a pena lutar contra o tempo. Importa sim fazer a festa da vida. E a vida é uma procura pela sabedoria. É ter o mundo em nós e não se deixar perder no labirinto de estradas, trilhos e formas, nem na angústia da banalidade dos dias. É ser capaz de dizer nós e não se deixar levar por egoísmos e protagonismos pessoais que ofuscam os laços da vivência comunitária. É dar sentido a tudo aquilo que se faz, mantendo viva a perceção e a visão da pessoa e do mundo que queremos desenhar como projeto e viver como realidade. Parabéns por este aniversário, por este ano e… que venha mais um.
Marco Gomes