Estava Seguro todo contente celebrando a vitória anémica das europeias, certo de que as legislativas seriam “favas contadas”, que era apenas uma questão de tempo pois a continuada austeridade aliada à habitual sociopatia do governo, lhe trariam inevitavelmente e de bandeja a vitória nas próximas eleições legislativas, seria o corolário de uma carreira iniciada na “J”, depois de ter cumprido todas as etapas a nível de aparelho.
Pouco importava que não consiga maioria absoluta, basta a maioria simples e que lhe permita formar governo, não importando com quem nem com que ideário, porque isso de ideologias são tretas e o que importa mesmo é o poder, pois as ideologias não garantem cargos a ninguém e assim como assim, o trabalho de liberalização do país já está meio acabado e não será necessário impor muitas mais medidas feias aos cidadãos.
Nascido no rescaldo do incêndio Sócrates, escolhido como placebo por um partido na “mó de baixo”, não foi capaz em três anos de demarcar-se do Socratismo, de firmar uma real alternativa ao pântano neoliberal em que Passos Coelho atolou o país, ou de fazer uma oposição acutilante e eficaz, capaz de dissuadir ou evitar parte do “temporal” que se abateu sobre todos nós.
O PSD estava relativamente confortável, pois, pese embora ter sofrido a mais pesada derrota de sempre, os resultados poderiam ter sido ainda piores, os 3 pontos percentuais de diferença afinal podem ser recuperáveis, tanto mais que há uns dinheiritos de reserva, que permitem fazer umas florezitas por altura das eleições, porque o pagode tem a memória curta, e já não se lembra ao certo do que almoçou na véspera. Com a oposição de Seguro, não há problema, pois é uma oposição “de sala”, não incomoda por aí além.
O PC, em consequência do bom comportamento de Seguro, sempre vai capitalizando, voto aqui, deputado acolá, pois há muita gente de esquerda à deriva sem encontrar porto ou partido onde se abrigar mas é bom que fiquem por ali, mais vale um PC do que nada, pois isto de ser de esquerda, não é para quem quer, mas para quem pode.
Eis senão quando surge António Costa a lançar uma inoportuna pedra no charco neoliberal que estava tão compostinho, cada um bem encaixadinho, na situação, ou na oposição porque, ora agora danças tu, ora agora danço eu, decerto amanhã dançaremos tu mais eu.
Costa considerou que a manter-se o rumo, ou antes a navegação “à vista” do timoneiro Seguro, o PS e o país “entrariam por um cano” ainda mais estreito do que o atual porque uma oposição assim não faz mossa, pois não constitui, para os eleitores, uma alternativa credível na área da social democracia, e que, não a sendo, só poderá ir “de cavalo para burro”, com resultados cada vez piores.
Perante o repto, Seguro tinha duas hipóteses: Ou “abrir o peito às balas”, aceitar o desafio, apesar de ter sido sufragado no último congresso, clarificando e separando as águas e reafirmando a sua liderança, ou recorrer às manobras necessárias à sua auto preservação, agarrando-se de “unhas e dentes” à atual situação por muito periclitante que esta seja.
Para Seguro, o desafio de Costa representa o fim do seu mundo, pois não chegará aonde quer ou pior ainda, não tem para onde vá, nem se perspetiva para ele qualquer futuro, pois é um homem sem profissão, a sua carreira é exclusivamente política e se não houver uma providencial grande empresa (tipo Mota-Engil) dependente do estado, que capitalize com o seu networking e facilidades, terá, sem dúvida, dificuldade em arranjar colocação.
Seguro nada ganhará com a opção que assumiu. Pode ter o aparelho na mão (salvo seja), pode ter blindado os estatutos de forma a não ser possível escolher outro líder, a menos que o líder vigente esteja de acordo, contudo, não tem os eleitores na mão, nem blindou o país. Estas primárias, são uma falácia, são um mero expediente dilatório e se, em termos abstratos, representam uma forma democrática de escolher um líder, neste contexto, sem estarem definidas estatutariamente em que condições e de que forma, vão permitir a Seguro ditar as regras, ir buscar cartas ao baralho e pô-las em jogo à medida das suas conveniências. Não é ético sermos juiz e parte no mesmo processo. De qualquer modo não se entende a apressada e impulsiva estratégia de adiamento de Seguro pois, se optasse por promover rapidamente um congresso, teria eventualmente a hipótese de ser confirmado como líder, ao passo que, se submeter a umas primárias para a escolha de um candidato a 1º ministro será para ele certamente um perfeito suicídio.
Se não me falha a memória, noutra situação semelhante à atual, Guterres em fevereiro de 92, afrontou e derrotou o então presidente do PS, Jorge Sampaio (que também tinha sido legitimamente eleito pelos militantes do PS), e com isso provocou uma grave cisão interna, pouco importando que então Cavaco tivesse uma maioria reforçada no parlamento. Na altura o jovem António Seguro foi paladino de Guterres.
Não interessa a nenhum dos atuais partidos que a iniciativa do mal-amado Costa avance: Ao PSD, porque não quer nenhuma verdadeira alternativa ao seu governo, nem alguém que lhe faça oposição, ao PC, não interessa que alguém à esquerda lhe faça concorrência. Contudo Seguro é o que tem mais a perder, ou seja, perderá tudo, possivelmente para sempre, por isso, prefere “tapar o sol com uma peneira”, armar-se em vítima, sacrificará o interesse do seu país e do seu partido ao seu ego fazendo com que se perca um tempo que seria precioso para a definição duma real alternativa, liderada por uma pessoa com o carisma que ele seguramente não tem e que indubitavelmente está na génese de qualquer líder. (Escrito em 11/06)
Helder Melim