É presidente da Madeira o político que está no poder há mais tempo em Portugal depois de Salazar. Alberto João Jardim superou esta semana esse recorde de triste memória e dá claros sinais de que está tão ou mais agarrado ao poder do que o ditador. Isto dá que pensar. Independentemente dos gostos e simpatias políticas de cada um, esta longevidade que cobre toda uma geração, deveria ser motivo de alguma reflexão. Da parte dos seus adversários, é evidente, mas sobretudo da parte dos seus apoiantes. Não apenas os comprometidos politicamente com o partido da maioria, mas todos os outros que permitiram chegar até aqui. Sem complexos, nem preconceitos. Sem servilismo, nem raiva. Sem clubismo nem resistência primária. Uma reflexão desapaixonada é o que se pede. Porque está toda uma vida, toda uma sociedade, uma Região inteira sob os mandos e desmandos de um homem. E isso é motivo suficiente para nos fazer reflectir pelo menos um pouco. Nem se põe aqui em causa a legitimidade do poder. Até admitindo uma ou outra eventual chapelada, não é isso que mantém Jardim no poder até hoje. É o voto dos cidadãos de forma mais ou menos livre. Mesmo que condicionados pelas ameaças nos primeiros tempos da democracia, mesmo que instrumentalizados por uma certa Igreja, mesmo que rendidos pelo cimento e os furados e as festas, mesmo que resignados e de pensamento moldado pelas casas do povo, as confrarias, os clubes e as associações do poder, foram os madeirenses que se deixaram governar assim pelo mesmo presidente durante 36 anos e 89 dias, que se completam hoje. 36 anos e 89 dias é muito tempo. É quase uma vida. É uma geração. É a minha geração, que não conhece mais nenhum presidente de governo. Independentemente da avaliação que a História fará como o devido distanciamento, para quem está sob este domínio praticamente desde sempre, é um sufoco. É como viver de janelas e portas fechadas, fechados numa ilha. Politicamente, é ser refém de alguém durante uma vida. Entretanto, lá fora, as coisas aconteceram. Foram feitas mudanças. Houve alternância. Saíram uns e entraram outros e saíram esses e voltaram a entrar os que tinham saído. Aqui bem perto, os continentais e os açorianos libertaram-se. Cortaram as raízes aos presidentes, ministros e secretários de estado fora de prazo. E nós aqui a ver a banda passar. Nem é a banda, é o tempo que passa. A banda é a mesma e já nem toca coisa alguma. Não toca, mas também não sai de cima do coreto. E o povo no adro. 36 anos e 89 dias é muito tempo. Todos sabemos que foram feitas coisas boas, coisas menos boas, outras más e outras horríveis mesmo. Já nem se discute isso. O que é estranho é este entorpecimento, mais social do que político. É esta dormência, que se mostra como quem vai na rua de ombros caídos, olhos pregados nos pés que se arrastam no chão com alcatrão quase sempre quente. Deve ser isso, esse calorzinho e esse cheiro a breu que nos traz assim embrutecidos durante 36 anos e 89, dias que se completam hoje. 36 anos e 89 dias é muito tempo. Mesmo triste por ser ultrapassado, no tempo e por vezes no modo, Salazar morto deve estar a rir-se da herança que deixou. É certo que perdeu as colónias africanas, lá se foi Timor, o Brasil já tinha ido. Mas nem ele esperaria ver na Pérola do Atlântico a materialização do que sonhou em Santa Comba Dão. Este longo mandato de Jardim já vai em 13. 314 dias no poder e, repito-o, em 36 anos e 89 dias, que se completam hoje. Não é só mais tempo do que teve Salazar, é mais tempo do que têm muitas vidas completas de gente que nasce, cresce, constitui família e morre. É muito mais tempo do que teve Cristo na Terra.