O contemporâneo senhor de pendão e caldeira (visto nas altas esferas como um gestor florescente que se confessa intimamente especialista em crises agudas e boatos mortíferos) arrasta os notáveis do clã incondicional. De bico calado e em bicos de pés, esses ilustres elogiam, sem reservas, da ponta dos pés ao alto da cabeça, o poder inesgotável do grande chefe. A plateia afidalga-se nos lugares cativos. Há champanhe, ostras e bolinhos de bacalhau para os eleitos de raiz.
O futebol (rei do merchandising, cotado na Bolsa e com o mundo à sua volta) vive aristocratizado pelo perfume intenso do império do dinheiro.
Tem uma velha e longa estória que se esgota em quatro momentos - lentidão, memória, velocidade e esquecimento; e passo a bola às palavras de Milan Kundera – “o grau de lentidão é directamente proporcional à intensidade da memória e o grau de velocidade é directamente proporcional à intensidade do esquecimento” (Sublinhe-se esquecimento no teatro nu da memória que já não povoa o coração).
Pertencemos ao desfile da “sociedade individualista de massas” de Dominique Wolton. À partida, com uma carteira de investimentos desequilibrada, a imagem da gestão empresarial do futebol, que se quer global, na sua era pós-moderna (ou pós qualquer coisa), tem, seguramente, o dedo ou a chancela de um guru que, na sua perfeição, age segundo o rigor vertical da autoridade absoluta na matéria. Negando “ser sem interioridade e sem corpo” (Philipe Breton), o inteligente, muito acima da média (militante perentório de perímetros e volumes periféricos), tem fama de pragmático teórico-prático, na linha dos que fazem utilidades e serventias; aprecia, com design criativo, as avantajadas ideias metódicas, que frequentam a sede de vidro das funções psíquicas. O rigor de aço, despido de emoções, nunca cede à mega-ansiedade metafísica e, colocando de lado o ser enquanto ser, submete-se a um scanner da sua rotina, ou aversão às inovações.
Juvenal Xavier