Violante Saramago Matos Deve ser um problema meu, mas a verdade é que a embrulhada de explicações e a grande preocupação em sacudir a água do capote a que se assiste em situações como a que agora vitimou os dois turistas na Vereda do Bom Sucesso, faz-me sempre recordar o que foi o espectáculo miserável de desresponsabilização colectiva aquando da morte dos candidatos a guardas florestais nas serras da Madeira, em finais dos anos 90. No fundo é a mesma coisa. Então como agora, todos parecem dormir de consciência tranquila e não há ninguém que tenha a hombridade de reconhecer erros, a frontalidade de assumir que não se cuida com a exigência que se impõe, a seriedade de confessar que não se respeita o princípio da prevenção e da precaução.

A culpa do que acontece é sempre do caminhante – ou porque se distrai, ou porque se afasta, ou porque vai por onde não deve, ou porque vai de calções e camisola e devia ir de calças e forro polar. Há acidentes? Claro que há. Mas se as veredas e levadas são anunciadas e ‘vendidas’ como nicho de mercado turístico de natureza, a obrigação de quem governa é assegurar TODAS as medidas e TODOS os procedimentos para garantir a prevenção e minimizar riscos.

Não basta a afirmação de que há percursos recomendados. Não estar recomendado significa que é perigoso? Então porque é que não está fechado, porque é que não se coloca uma cancela, com indicação de passagem proibida e perigo de escorregamento ou derrocada? Porquê? Isto é difícil? Mais, se não é recomendado, como se explica que esteja assinalado com tabuleta e seta?

Sabendo-se da informação, muitas vezes errónea, que prolifera por aí, não tem que competir aos responsáveis o desencadear de verdadeiras acções de contra-informação? Certamente mais intervenção junto de hotéis, agências de viagem e operadores mas, desde logo, assinalando no local a proibição, ou os riscos, de passagem.

Inúmeros percursos estão sem manutenção anos a fio, na maior parte dos casos porque não há dinheiro. Há muito tempo que defendo que, para podermos oferecer levadas e veredas integradas num roteiro seguro e de qualidade, o acesso deve ser pago por quem os utiliza e esse pagamento integralmente destinado a ajudar a custear a manutenção e a fiscalização. Quanto aos percursos que não sejam integrados nesse roteiro devem estar clara e inequivocamente sinalizados.

Nunca houve verdadeiramente vontade política para agarrar a sério a questão da segurança nas veredas e levadas – não sei se por incapacidade, se por casmurrice ou se, tão simplesmente, porque não! Temo que seja a última hipótese.

Em vez de andarmos muito apressados a considerar a candidatura das levadas e veredas a património mundial da UNESCO melhor será, como diz Raimundo Quintal, um debate sério sobre o turismo de natureza.

Defender-se-ia, assim, melhor o que é preciso defender, com uma estratégia bem identificada e com medidas adequadas e preventivas.