Por esta altura andamos muito entretidos a “mandar palpites” sobre se o Ronaldo vai jogar ou não, se estará a 100% … Podemos até conjeturar se esta ‘paragem’ não será benéfica, por exemplo, se ele não estiver em condições de explorar os limites de algumas das variáveis (como a velocidade) se isso não o levará a privilegiar outras, como criar e aproveitar janelas de oportunidade para passar a bola a colegas que estejam melhor colocados…

É evidente que a presença em campo de um jogador como o Ronaldo se reflecte, de forma significativa, nas dinâmicas do jogo pois, por exemplo, condiciona a estratégia e a tática das duas equipas.

Ora, no treino de uma Seleção o que é fundamental é coordenar, gerir variáveis com tendências evolutivas contraditórias, procurando encontrar os equilíbrios mais favoráveis entre as diferentes capacidades e potencialidades de cada um dos jogadores.

Neste caso o treino serve para criar e desenvolver coordenações, não para ensinar os jogadores a passar e rematar, etc. Contudo, não nos podemos esquecer que as capacidades e potencialidades dos jogadores são aquelas que eles apresentam no momento e não aquelas que já deram mostras noutras alturas da época.

Como bem sabemos (mas muitas vezes esquecemos), não se pode pedir aquilo que as pessoas não têm condições para dar nem aquilo que não trabalhámos (solicitámos).

No processo de treino é necessário alargar os limites (mínimos e máximos), porque quando não solicitamos alguns limites perdemos capacidade de adaptação e não evoluímos.

O problema da adaptação (não é só no desporto) começa na formação, até porque depois pode ser mais difícil de conseguir e podem existir disfuncionalidades (inadaptações), inclusive algumas resultantes de resistências a novos processos e solicitações.

É assim necessário que se conheça qual é a capacidade de adaptação que cada um tem. Temos de saber o que queremos solicitar e qual a posologia mais adequada a cada um para que as adaptações sejam as mais rentáveis, em função dos objectivos visados.

Para que se obtenham as rentabilidades máximas é necessário que se faça uma coordenação adequada.

Há uma boa parte deste tipo de processo que pode e deve ser explicada ao público em geral (não é segredo de estado). Cabendo ao treinador, ou a quem na estrutura possa ter esse tipo de funções e competências, fazê-lo.

Mas afinal os espectadores querem compreender as dinâmicas a partir de uma informação sobre os funcionamentos ou pretendem só olhar para os músculos do Ronaldo e ouvir umas tricas e alguns ‘fait divers’

Hélder Lopes