É verdade: com ou sem Cristiano Ronaldo na máxima força, com vitórias de Portugal ou não, vem aí mais um 'efeito anestesia' com a maior parte do País focada apenas no Mundial de Futebol no Brasil. A reduzida faixa anti-futebol, eventualmente frustrada por não conseguir cativar nem 5% da atenção para a sua lista de prioridades, voltará a desdenhar sobre a fraca intelectualidade do 'pessoal da bola', encontrando aí a justificação para a parte desgraçada do Portugal que somos. É a nossa sina, a dos que gostam de futebol e dos que cometem esse sacrilégio de activar o 'modo Brasil 2014'. Como é o meu caso, que vou de férias para o país do futebol. Um Mundial de Futebol é um acontecimento único que já tive a oportunidade de experimentar em diferentes latitudes geográficas e culturais. É muito mais, mas muitíssimo mesmo, do que meia centena de jogos no mesmo país. Tudo gira à volta da bola, mas tudo vai muito mais além com efeitos na economia, nas finanças, na política, no turismo, no desenvolvimento de infraestruturas que ficam para além daqueles 2 ou 3 jogos em cada estádio. No Brasil, terra que vibra também ao ritmo do futebol, um Campeonato do Mundo deve ser qualquer coisa de estonteante. Ter a oportunidade de vivenciá-lo 'ao vivo e a cores', predominantemente verde e amarelo, é um privilégio. Se a tudo isso juntarmos o outro privilégio que é ficar, pelo menos durante 2 semanas, sem o ram-ram da nossa política doméstica e de outras das nossas especificidades ultraperiféricas, então fica claro que este Mundial reúne todas as condições para se tornar algo memorável. Não posso ignorar que vou encontrar um país com muitos problemas sociais e particularmente raivoso com o investimento vultuoso em infraestruturas desportivas, em detrimento da educação e da saúde para o povo brasileiro. É um tema delicado, mesmo descontando a parte da instrumentalização planeada e altamente profissional. O Brasil tem os seus problemas e vai continuar a tê-los depois do Mundial. Não me parece muito razoável gastar demasiado tempo com essas preocupações, mesmo sendo reais e graves em muitas situações. Ao fim e ao cabo, para quem não consegue influenciar nem aconselhar os problemas que temos em Portugal, e em particular na Madeira, não parece muito sensato querer influenciar o que se passa no Brasil. Não é insensibilidade, é realismo. Por tudo o que ficou escrito, vou mesmo activar o 'modo Brasil 2014'. Regressarei quando o efeito desta 'anestesia' tiver terminado e espero que algumas coisas tenham melhorado. Valeu, galera?
PS: Atenção aos nossos políticos: eles vão aproveitar este período de 'anestesia colectiva' para fazer das suas...