Portugal ganhou credibilidade. Trata-se de uma conquista fundamental para qualquer recuperação económica A Troika (aparentemente) foi embora. Chegou assim ao fim o primeiro episódio de uma longa novela que começou há 3 anos mas que ainda tem pela frente muitos anos. Até pagarmos o que o José Sócrates pediu no dia que falimos. Num curto balanço destes 3 anos diria: Portugal ganhou credibilidade. Trata-se de uma conquista fundamental para qualquer recuperação económica. Nesse aspeto o governo está de parabéns. Outro aspeto positivo é o custo dos juros a novos empréstimos. Já vamos sozinhos aos mercados pedir o dinheiro que precisamos. Trata-se de uma conquista muito positiva e que eu, pelo menos, não acreditava que fosse possível neste curto espaço de tempo. Óbvio que a conjuntura internacional ajudou mas a verdade é que se conseguiu aquilo que parecia impossível até à pouco tempo. Outro aspeto muito positivo: o aumento das exportações. O governo fez o seu papel mas quem teve o papel principal no aumento das exportações foram os empresários. Estamos de parabéns por isso mesmo. No entanto para se conseguir estes sucessos - da inteira responsabilidade do governo e dos portugueses – houve consequências paralelas dramáticas: a principal, o aumento do desemprego mas também o “enorme aumento” dos impostos. O primeiro deveria ter merecido uma atenção muito maior para se evitar que tantos portugueses estejam na miséria, humilhados e desamparados. Trata-se de uma situação dramática do ponto de vista social que nunca poderia ter atingido os números atuais. Felizmente que os últimos dados demonstram que o desemprego parou de crescer. O outro aspeto profundamente negativo tem a ver com o roubo fiscal que as empresas e os cidadãos portugueses continuam a ser vítimas. A solução – já escrevi muitas vezes – é diminuir o tamanho e a despesa do monstro Estado libertando a economia para que ela cresça e crie riqueza. Infelizmente não é isso que tem sido feito de uma forma determinada. Ao mesmo tempo que se deveria diminuir o tamanho e a despesa do Estado deveríamos criar um Estado forte, reformado e respeitado. Também isso não foi feito. Pior mesmo é verificarmos que alguns dos cortes inevitáveis poderão ser repostos num futuro próximo quando todos sabemos que o País não tem condições para isso. Também algumas Reformas como a da Segurança Social parecem ter ficado para mais tarde. É pena. Assim a recuperação que Portugal assistiu nos últimos três anos é frágil e insuficiente. Insuficiente porque há muito ainda por fazer e frágil porque tudo pode voltar à estaca zero. ELEIÇÕES EUROPEIAS O PS teve uma tímida vitória que perante as expetativas podemos mesmo falar em tímida derrota. A aliança PSD-PP teve um péssimo resultado. Só que já era esperado. Por isso foi uma derrota light. Mas não deixa de ser uma pesada derrota. As conclusões que se tiram são: está tudo em aberto para as próximas legislativas. A vitória tanto poderá vir a ser do PS como da aliança PSD-PP. Nem PS nem PSD-PP vão ter maioria absoluta. Logo o próximo governo será de coligação. A coligação será entre os dois maiores partidos. O Bloco Central vai regressar. A grande surpresa da noite eleitoral acabou por ser Marinho e Pinto. Teve um resultado surpreendente. Naturalmente será candidato a Belém e vai ser um forte candidato anti-sistema. Já o partido comunista teve um bom resultado o que lhe vai manter a força na rua. O Bloco teve o que se esperava: uma derrota natural de um projeto que já não entusiasma. A abstenção foi assustadora. Não só o tema Europa não entusiasma como as listas concorrentes foram de facto muito fracas. A nível europeu: uma abstenção enorme e preocupante e uma clara derrota dos partidos clássicos. Também assistiu-se ao fortalecimento dos partidos de extrema direita e de extrema esquerda. A culpa é naturalmente da classe política do chamado arco governativo. Uma classe política com muito pouca qualidade. As consequências estão à mostra. VASCO GRAÇA MOURA Vale a pena referenciar a vida de Vasco Graça Moura pois era um homem de grandes convicções. Nunca cedeu. Nunca optou pelo caminho mais fácil. Na escrita e na tradução foi excecional e premiado. Também na política foi original e corajoso. Fazendo parte da uma família cultural que era, na sua maioria, de esquerda – onde se sentia bem, respeitava e era respeitado – Graça Moura apesar disso nunca deixou de ser um homem de convicções não ligadas à esquerda mas sim ao centro Direita (foi sempre apoiante entusiasta de Cavaco Silva e foi eurodeputado pelo PSD). Ou seja, correto com a sua família cultural e coerente com a sua família política. Só um homem de carácter e convicções é que podia ter este equilíbrio como natural, indiscutível e aceitável. Vasco Graça Moura fez da Literatura e da Língua as suas duas paixões. E lutou por elas à sua maneira. Foi até ao fim da sua vida um opositor ao Acordo Autográfico. Estive, poucos meses antes de ele morrer, com Graça Moura num jantar em casa de um amigo comum: o Embaixador da Argentina em Portugal que o quis, justamente, homenagear. Aplaudimos e brindamos à vida coerente de um homem independente, correto e bastante culto. Era Vasco Graça Moura. SUGESTÃO Duas Exposições a não perder em Lisboa. Uma no Museu Nacional de Arte Antiga com as “Joias de Ouro da Antiga Goa”. Muitas joias das famílias portuguesas e goesas, que estavam nos cofres do BNU em Goa e que foram retiradas do território pouco antes da invasão das tropas da União Indiana. Riquíssimas peças que estão expostas pela primeira vez. Outra exposição, curiosamente no mesmo Museu, com alguns (poucos) tesouros da família real dos Saboia. Foi a família que reunificou e reinou a Itália. Não é excecional mas vale a pena visitar. Paulo Neves

Portugal ganhou credibilidade. Trata-se de uma conquista fundamental para qualquer recuperação económica

A Troika (aparentemente) foi embora. Chegou assim ao fim o primeiro episódio de uma longa novela que começou há 3 anos mas que ainda tem pela frente muitos anos. Até pagarmos o que o José Sócrates pediu no dia que falimos. Num curto balanço destes 3 anos diria: Portugal ganhou credibilidade. Trata-se de uma conquista fundamental para qualquer recuperação económica. Nesse aspeto o governo está de parabéns. Outro aspeto positivo é o custo dos juros a novos empréstimos. Já vamos sozinhos aos mercados pedir o dinheiro que precisamos. Trata-se de uma conquista muito positiva e que eu, pelo menos, não acreditava que fosse possível neste curto espaço de tempo. Óbvio que a conjuntura internacional ajudou mas a verdade é que se conseguiu aquilo que parecia impossível até à pouco tempo. Outro aspeto muito positivo: o aumento das exportações. O governo fez o seu papel mas quem teve o papel principal no aumento das exportações foram os empresários. Estamos de parabéns por isso mesmo. No entanto para se conseguir estes sucessos - da inteira responsabilidade do governo e dos portugueses – houve consequências paralelas dramáticas: a principal, o aumento do desemprego mas também o “enorme aumento” dos impostos. O primeiro deveria ter merecido uma atenção muito maior para se evitar que tantos portugueses estejam na miséria, humilhados e desamparados. Trata-se de uma situação dramática do ponto de vista social que nunca poderia ter atingido os números atuais. Felizmente que os últimos dados demonstram que o desemprego parou de crescer. O outro aspeto profundamente negativo tem a ver com o roubo fiscal que as empresas e os cidadãos portugueses continuam a ser vítimas. A solução – já escrevi muitas vezes – é diminuir o tamanho e a despesa do monstro Estado libertando a economia para que ela cresça e crie riqueza. Infelizmente não é isso que tem sido feito de uma forma determinada. Ao mesmo tempo que se deveria diminuir o tamanho e a despesa do Estado deveríamos criar um Estado forte, reformado e respeitado. Também isso não foi feito. Pior mesmo é verificarmos que alguns dos cortes inevitáveis poderão ser repostos num futuro próximo quando todos sabemos que o País não tem condições para isso. Também algumas Reformas como a da Segurança Social parecem ter ficado para mais tarde. É pena. Assim a recuperação que Portugal assistiu nos últimos três anos é frágil e insuficiente. Insuficiente porque há muito ainda por fazer e frágil porque tudo pode voltar à estaca zero. ELEIÇÕES EUROPEIAS O PS teve uma tímida vitória que perante as expetativas podemos mesmo falar em tímida derrota. A aliança PSD-PP teve um péssimo resultado. Só que já era esperado. Por isso foi uma derrota light. Mas não deixa de ser uma pesada derrota. As conclusões que se tiram são: está tudo em aberto para as próximas legislativas. A vitória tanto poderá vir a ser do PS como da aliança PSD-PP. Nem PS nem PSD-PP vão ter maioria absoluta. Logo o próximo governo será de coligação. A coligação será entre os dois maiores partidos. O Bloco Central vai regressar. A grande surpresa da noite eleitoral acabou por ser Marinho e Pinto. Teve um resultado surpreendente. Naturalmente será candidato a Belém e vai ser um forte candidato anti-sistema. Já o partido comunista teve um bom resultado o que lhe vai manter a força na rua. O Bloco teve o que se esperava: uma derrota natural de um projeto que já não entusiasma. A abstenção foi assustadora. Não só o tema Europa não entusiasma como as listas concorrentes foram de facto muito fracas. A nível europeu: uma abstenção enorme e preocupante e uma clara derrota dos partidos clássicos. Também assistiu-se ao fortalecimento dos partidos de extrema direita e de extrema esquerda. A culpa é naturalmente da classe política do chamado arco governativo. Uma classe política com muito pouca qualidade. As consequências estão à mostra. VASCO GRAÇA MOURA Vale a pena referenciar a vida de Vasco Graça Moura pois era um homem de grandes convicções. Nunca cedeu. Nunca optou pelo caminho mais fácil. Na escrita e na tradução foi excecional e premiado. Também na política foi original e corajoso. Fazendo parte da uma família cultural que era, na sua maioria, de esquerda – onde se sentia bem, respeitava e era respeitado – Graça Moura apesar disso nunca deixou de ser um homem de convicções não ligadas à esquerda mas sim ao centro Direita (foi sempre apoiante entusiasta de Cavaco Silva e foi eurodeputado pelo PSD). Ou seja, correto com a sua família cultural e coerente com a sua família política. Só um homem de carácter e convicções é que podia ter este equilíbrio como natural, indiscutível e aceitável. Vasco Graça Moura fez da Literatura e da Língua as suas duas paixões. E lutou por elas à sua maneira. Foi até ao fim da sua vida um opositor ao Acordo Autográfico. Estive, poucos meses antes de ele morrer, com Graça Moura num jantar em casa de um amigo comum: o Embaixador da Argentina em Portugal que o quis, justamente, homenagear. Aplaudimos e brindamos à vida coerente de um homem independente, correto e bastante culto. Era Vasco Graça Moura. SUGESTÃO Duas Exposições a não perder em Lisboa. Uma no Museu Nacional de Arte Antiga com as “Joias de Ouro da Antiga Goa”. Muitas joias das famílias portuguesas e goesas, que estavam nos cofres do BNU em Goa e que foram retiradas do território pouco antes da invasão das tropas da União Indiana. Riquíssimas peças que estão expostas pela primeira vez. Outra exposição, curiosamente no mesmo Museu, com alguns (poucos) tesouros da família real dos Saboia. Foi a família que reunificou e reinou a Itália. Não é excecional mas vale a pena visitar.

Paulo Neves