A Europa vive com medo da sua própria sombra que se agiganta pela desconfiança mútua que escorre pelos meridianos. Começou no de Greenwich e alastrou em todos os outros, num efeito contágio previsível. Tememo-nos uns aos outros. Nós desconfiamos da bondade das ajudas que nos ‘oferecem’. Eles duvidam da nossa capacidade em regenerar a economia sozinhos, em criar riqueza e em disciplinarmo-nos para não gastar mais do que temos.

Portugal receia transformar-se num antro de trabalhadores descartáveis, numa fábrica de exportação de juventude e de recursos humanos qualificados. Queremos expurgar essa ideia de sermos uma espécie de mercado laboral búlgaro do Ocidente. Por isso, demos força aos partidos que mais têm sido fiéis aos valores da esquerda. A França teme perder a voz de comando na Europa e reage à supremacia alemã, onde Merkel continua a liderar, cavalgando numa onda nacionalista de extrema-direita, só para impor um ‘Non! Assez!’. No canto da velha Europa, a Grécia mostra que a rebeldia social não se cinge à Praça Sintagma e estende a passadeira à extrema-esquerda, elegendo a coligação radical que consagra o Syriza, um partido que nunca havia ganho um acto eleitoral, no seu fiel escudeiro no Parlamento Europeu, só para mostrar de que matéria é feita o eurocepticismo de um país falido e a contas com a ‘troika’.

Esta emersão de sentimentos nacionalistas extremistas coloca-nos no horizonte uma Europa egoísta e extremamente vulnerável. Este recuo civilizacional faz estremecer os tratados europeus e os pilares da coesão que ainda vão segurando a União e a zona euro. É claro que os sentimentos nacionalistas são legítimos e não surgem por acaso. A igualdade fiscal e contributiva continua a ser uma miragem. As assimetrias em matéria de direitos um logro. A tecnocracia europeia afasta o ideal do real.

Infelizmente, cada um de nós recusa assumir a sua quota parte de responsabilidade pela Europa que construímos. E quando não nos revemos no projecto europeu, ainda em forma de busto, feito de pasta farta de ser amassada, em vez de contribuir para o fermento, preferimos nos agarrar à nossa própria soberania. Ou ao que resta dela. A Europa peca pela fuga ao debate sobre si mesma. Também porque muitos continuam a fazer dela o mal dos seus pecados. O perfeito bode expiatório dos nossos insucessos.

A campanha eleitoral esteve imbuída nesse elixir e andou tão a leste da agenda europeia que os resultados da abstenção falam por si. Preferiu-se andar ali na órbita dos chavões de mais solidariedade, menos insularidade e mais e melhores apoios comunitários. Não houve debate de ideias, não se esclareceram pontos de vista e não se trouxe a Europa até nós, a começar pela Europa do conhecimento e das oportunidades. Quando se transforma as eleições europeias numa batalha interna de poder e de popularidade, num barómetro das legislativas nacionais e num concurso de carreirismo político, perdemos todos. E ficamos ainda mais ultraperiféricos do que já somos.