Uma verdadeira tempestade está a ferver no mundo operático, depois de uma cantora jovem, a quem aliás ninguém nega capacidade vocal e artística, ter sido alvo de ofensas e insinuações relativamente a sua figura, por nada menos que CINCO críticos de cinco jornais britânicos importantes. O alvo foi a cantora irlandesa Tara Erraught, interpretando o papel masculino de Octaviano, da ópera “O cavaleiro da rosa” de R. Strauss, num dos festivais de ópera mais conceituados do mundo, Glyndenbourne (perto de Brighton, na Inglaterra), fundado em 1934. Ser chamado de “um molho rechonchudo da gordura pueril” não agradaria a qualquer pessoa que seja o alvo. No entanto, quando isto acontece num género artístico que, ao longo da sua história de mais de 400 anos, chegou a ver, ainda bastante recentemente, a figura (e que figura!) de um Pavarotti a interpretar papéis heróicos, destinados a tenores esbeltos, esguios e enérgicos, e de várias “Mimis” de “La Bohème”, cujos “Rodolfos” não eram capazes de as levantar nos seus braços nem no momento crucial em que elas estavam a morrer dramaticamente, então é que a realidade e o ridículo trocaram de lugares. A troca subsequente de galhardetes, raspanetes e demais opiniões relevantes e menos que relevantes, acendeu os céus musicais um pouco por todo o mundo artístico: uns a defender a qualidade da voz enquanto a única qualidade relevante, outros a defender a impossibilidade de separar o factor visual do factor auditivo, e uma cantora de relevo britânica a afirmar que “encher o palco com cantores que, antes de mais, são visualmente credíveis ou sexualmente atraentes, na óptica dos nossos críticos...e o caminho para a morte da ópera”, uma vez que a tal “barriga de tanquinho” representa uma contra-indicação para a respiração diafragmática e a qualidade geral do som. Até agora, apenas UM dos críticos dignou-se oferecer as suas desculpas (se bem que com algumas reservas) publicamente. A mais acertada leitura e o diagnóstico do acontecido veio, porventura, de um empresário de ópera em Londres: a indústria operática deve ser culpada de ter sexualizado as produções, procurando cativar o grande público elusivo, que vem do mundo onde o aspecto físico é tudo. Serão então futuramente os palcos populados por “top-models” e a música um “playback”...? Que pesadelo! Vamos lá viver – e ouvir, e ver – a realidade!
Robert Andres Musicólogo