“A Habitação de Jonas”, de Inês Fonseca Santos (com ilustrações de Ana Ventura e editado pela ‘abysmo’, em 2013), é um livro-casa. É uma caixa. Este livro-casa contém um conjunto de belíssimas ilustrações de Ana Ventura. Dentro de “A Habitação de Jonas”, moram – amovíveis – desenhos que nos concedem “espreitar e ver-se-lhes a olho nu o espaço íntimo” das “entranhas”, “das paredes” da casa de Jonas. Aceitemos que o livro é casa, os desenhos móveis, as páginas paredes. Aceitemos que as ilustrações são “quadros e desenhos” que moram – em silêncio – “dentro da cabeça das paredes, sobretudo da cabeça do coração” de “A Habitação de Jonas”. Na morada que acolhe Jonas, há uma “boca – a do abysmo”. Aceitemos que a entrada deste livro-casa é a boca do peixe que engoliu Jonas, que dentro do imenso peixe permaneceu três dias e três noites. “A Habitação de Jonas” começa a nascer, secreta, murmurada, por dentro d’“As Coisas” (livro de 2012): “Dentro da casa, instalava-se a tempestade”. Assombroso poema – um só poema arquitectado em três sequências temporais e o seu dobro – “Primeiro Dia | Primeira Noite”, “Segundo Dia | Segunda Noite” e “Terceiro Dia | Terceira Noite” – aos primeiros versos do livro acontece o assombro, a tempestade, a demolição: “Sei que esta grande tempestade / por causa de mim vem sobre as paredes / da casa, afastados já os móveis.” (...) / “Porque Tu, Senhor, fizeste como te agradou: / três dias e três noites em oração contra Ti. / A grande tempestade por causa de mim / expôs como ferida em carne viva o esqueleto / da casa. / Ossos feitos de material de construção.” Ao “Primeiro Dia”, durante a “Primeira Noite”, “Jonas chegou a casa”. Aberto o livro – a casa – abre-se a boca: este é um espaço de “afta”, de afasia, numa cidade sem nome, deserta. Em Jonas mora a “língua desconhecida que habitava.” (...) “um lugar em ruínas, não uma casa em ruínas; uma boca tentando ser cidade inabitada.” Narrativa a três compassos e a seis tempos – três dias | três noites – “A Habitação de Jonas” reflecte sobre e com a linguagem, a palavra, a matéria de que se faz o homem, ou a temporalidade, sobretudo sobre a inevitável condição de falhar ao falar: “Quis dizer: tempo. Ou: homem. / Disse: dor. Sobre ele fecharam-se as paredes. / Os sinos tocaram. Nenhum rosto por dentro do dele. / Nenhuma pergunta. Apenas uma sílaba como som: dor. / Jonas soube: não existia na cidade outro homem.” Em “A Habitação de Jonas” o som – o dos sinos – é memória da ausência da palavra, impossível percurso de regresso ao “útero”, aos primeiros “sinais vitais da nossa casa”, ao quase silêncio anterior – interior –, em que nenhum rosto há “por dentro do dele”. “Mas recordou: a música. E respirou.” Há, como ar por respirar, uma língua por aprender, perdida. Em Jonas, em nós, mora o “ritmo das paredes da boca colado ao / ritmo dos sinos da cidade. / Jonas levantou-se. / Queria arrumar o coração no lugar certo, / descer por ele até mais do que uma sílaba: até uma palavra. / Preparou a voz para descobrir a boca, a cidade.” Por dentro do “coração”, Jonas “abriu a boca para falar de novo, mais”. A linguagem – a poesia – é precipício que Jonas habita, que nos habita: “era uma voz de abismo de fundo de copo”. Há a falha, há medo, temor: “Jonas sabia falhar. / Tinha aprendido a saltar por medo. / Saltava por cima da língua por temer a voz. / Nunca antes a tinha ouvido, a` sua voz, soando dentro de outra boca. / Ouvia-se agora após tocarem os sinos da cidade.” Antes da “terceira noite”, regresso a casa, a um espaço branco, à mudez do mundo. Antes do fim, inquieto-me – com Jonas, com Inês. Não eu. Tu sim: “Eu sei, como tu sabes, quem é esse que habita as paredes da casa. / Eu sei, como tu sabes, que única mão e´ essa que folheia os livros, / que apanha as pedras. / E eu sei, como tu sabes, que ninguém, nem mesmo a chuva, / tem mãos assim tão pequenas. / Mas eu olho, como tu olhas, essa mão minúscula cosendo / um corredor de almofadas, aguardando / quem sobre elas durma. / E eu sei, como tu sabes, que essa mão translúcida comanda / os versos, abusando de pensamentos e palavras, actos e omissões.” Estamos, ante a morte ou na infância, ou ante deus, em nua mudez do mundo.

Diana Pimentel Docente universitária