O ano de 2014 ficará para sempre marcado na vida dos portugueses como tendo sido o ano da “libertação”, da descolagem face às pesadas medidas de austeridade impostas pelos nossos credores em função da nossa incompetência em gerir dinheiros públicos e causas públicas. Politicamente, desde 2011, estamos com um Governo de coligação PSD/CDS-PP. O ano de 2010 também ficará marcado, como um ano horrível. Foi o ano do desespero e da machadada final dos nossos credores, de quem tem suportado todas as nossas asneiras e despesismos, de quem paga as nossas contas e permite que tenhamos salários em dia. O descalabro já vinha de 2005 e durou até meados de 2011, sempre com Governo Socialista. Para os mais distraídos, a dívida pública portuguesa, em função do PIB, entre 2005 e 2011, passou de 62% para 110%, ou seja, aumentou de 95.000 Milhões de euros para os 180.000 Milhões (duplicou!). No início de 2014, a nossa dívida anda perto dos 215.000 Milhões de euros, representando quase 130% do PIB português. Só em juros da dívida pública, pagamos anualmente mais de 7.200 Milhões de euros, o que representa 4,3% do PIB, equivalente ao que gastamos anualmente com o Serviço Nacional de Saúde ou com a Educação ou com o resgate (o que conhecemos) do BPN. Nos últimos 40 anos de democracia portuguesa, nunca as contas públicas apresentaram outro resultado que não fosse o défice, ou seja, sempre gastamos muito mais do que tínhamos ou poderíamos. Se o fizéssemos na nossa casa ou na nossa vida, já não haveria certamente credor nenhum que nos salvasse. Esta foi a 3ª vez que Portugal foi intervencionado. Nem imagino a reputação portuguesa “lá fora”. O que vale é que desta vez não foram só portugueses. “Até quando vamos estar assim?”. Ainda mal saímos desta última intervenção e apesar de nem sabermos como pagar as nossas dívidas e só porque os mercados começam a olhar para nós com mais confiança (tudo à custa de milhares de desempregados, muita fome, emigração, famílias desestruturadas), pois conseguimos fazer o grande feito de, tirar cada vez mais dinheiro ao povo português e rebentar com a classe média, mantendo o nível de despesismo do Estado, sem qualquer reestruturação profunda do Estado e do sistema político português ou até mesmo de funcionamento, e desatamos a prometer baixar a carga fiscal, aliviar no esforço aplicado e nas medidas consolidadas, apenas porque teremos este ano e no próximo ano, novas eleições. Enquanto pensarmos por ciclos eleitorais, estaremos sempre a contribuir para o descalabro. Ou aumentam os períodos de governação (10/15 anos) ou desenvolvemos um plano de médio/longo prazo governativo, com decisões estratégicas e reformistas, a sério, com a concordância dos principais partidos políticos. Veja-se o exemplo dos países nórdicos em áreas como a saúde e a educação. O Estado tem de ser cada vez mais regulador e intervencionista apenas nas áreas da defesa, justiça e área social, com rigor e profissionalismo e deixar as restantes áreas para o sector privado. Tanto se fala nas PPP - Parcerias Público Privadas. Foi um excelente modelo encontrado, mas não da forma como o fizeram. Será necessário refazer o modelo, evitando as rendas excessivas e despropositadas, os diferimentos de custos e despesas orçamentais para futuros e longínquos orçamentos. Cuidado com o excesso de facilitismo, pois tudo se paga e tudo tem as suas consequências, positivas ou negativas. Temos de levar muito mais a sério o rigor orçamental e controlo de custos, investindo o essencial para a promoção do desenvolvimento económico mas sem pôr em causa futuras gerações com dívidas colossais. O que já se hipotecou em termos de futuras gerações foi criminoso. É necessário o desenvolvimento e crescimento mas não a qualquer preço. O facilitismo é muito caro.
Pedro Calado Administrador