É uma questão cíclica: de cada vez que o Benfica disputa uma competição da UEFA e perde, nomeadamente no caso de a competição ir adiantada em número de jornadas, há sempre quem fale na maldição de Bela Guttmann. O que, convenha-se, constitui um exagero sem explicação. Vejam-se os factos. Bela Guttmann foi um cidadão húngaro que na transição dos anos cinquenta para os anos sessenta, depois de ter treinado o F.C. Porto, então sem a pujança que viria a conhecer nestes últimos anos, estabeleceu contrato com o Benfica onde chegou com a recomendação da excelente carreira que tinha feito nas Antas e onde encontrou uma equipa em que se destacavam já Costa Pereira, Germano, Ângelo, Mário Coluna, José Augusto, José Águas e Cavem, entre outros. Eusébio ainda não tinha chegado e o ciclo ganhador ainda não se tinha iniciado. Com uma experiência que passava pelo Brasil, onde tinha treinado, e também pela Itália de cujo idioma se servia para preferentemente comunicar, misturando palavras portuguesas com italianas a par de algumas outras dos países por onde tinha passado, Guttmann foi um filão para a imprensa portuguesa da época e de um modo muito especial para a imprensa desportiva nada habituada a lidar com alguém que tinha a experiência humana do prestigiado treinador húngaro. Sobre o que foram os anos de Guttmann no Benfica ficou a memória dos êxitos retumbantes que alcançou, onde sobressaem duas vitórias na então Taça dos Clubes Campeões Europeus defrontando na primeira Final o Barcelona e na segunda o Real Madrid, aqui já contando com o concurso de Eusébio. Com o país exultante á espera de um terceiro triunfo consecutivo que permitisse ao Benfica aproximar-se das proezas do Real Madrid, . Guttmann surpreendeu tudo e todos ao recusar a proposta de renovação que o Benfica lhe dirigira e ao optar pela saída, deixando o Benfica na orfandade. Foi um gesto calculado de um indivíduo que era um profundo conhecedor da alma humana e que tinha percebido que o Benfica praticamente desconhecido que ele encontrara quando chegou a Lisboa se havia em três anos aburguesado, pelo que se tornava muito problemático repetir os êxitos antes conquistados. Desligado de Guttmann, o Benfica teve que procurar sucessor, escolhendo para o efeito o chileno Fernando Riera que viria a comandar a selecção do seu país no Campeonato do Mundo que se disputou no Chile, onde conquistou um meritório terceiro lugar. Acresce que nem Riera nem quem lhe sucedeu fez esquecer Guttmann, pelo que o Benfica de forma convicta montou um cerco em torno do técnico húngaro apostando no seu regresso. Mas Guttmann, grande conhecedor de caracteres, não se deixava convencer de uma forma leve e optou por esperar. Passaram-se três anos findos os quais o técnico húngaro considerou que a situação já estava suficientemente degradada para poder arriscar o regresso. Foi, provavelmente, o maior dos erros que cometeu na sua carreira de treinador de sucesso. Porque quando voltou ao Estádio da Luz a equipa modesta que ele soubera transformar num dos grandes da Europa, com uma fornada de jogadores que fora capaz de moldar á sua imagem e semelhança, dera lugar a um outro Benfica, um Benfica consciente da sua valia, daquilo que a sua marca representava na Europa e no mundo do futebol, um Benfica respeitado e temido pela sua valia, E sendo certo que os jogadores que integravam esta equipa ainda eram no essencial praticamente os mesmos que se tinham sagrado Campeões Europeus numa final memorável frente ao Barcelona, o seu peso, a sua importância e a forma de agirem tinha mudado e muito. Guttmann, quando acedera ao convite para voltar, ponderando eventualmente tal possibilidade não a valorizou particularmente, convicto que estava de que com a mesma receita que aplicara quando chegou pela primeira vez a Lisboa ía conseguir os mesmos resultados. Não tardaria a compreender que não era assim que as coisas iam passar-se. Mas a certeza tê-la-ia quando encontrou o Manchester United no Estádio da Luz, e frente a uma equipa onde se distinguiam Denis Law, Bobby Charlton e Nobby Stiles e em que principiava a despontar esse prodígio de talento que foi George Best perdeu por uns humilhantes 1-5. Para Guttmann foi além do mais a ruptura com o Benfica. E magoado pela forma como se sentiu desrespeitado depois de o Clube que tinha trazido do anonimato tudo lhe dever, cortou relações com a comunicação social a quem imputava a responsabilidade do sucedido Foi por esse época que conheci Guttmann. Acabado de chegar a Lisboa e invocando a vaga condição de correspondente do Diário de Notícias do Funchal, demandei com não muita convicção o Hotel Tivoli onde o técnico húngaro se hospedava, fiz-me anunciar, e pedi-lhe uma entrevista. Guttmann ainda a ninguém havia prestado então declarações. Atendeu-me e depois de saber de onde eu vinha e ao que ía comunicou-me que me concedia dez minutos. Na verdade falámos durante cerca de uma hora durante a qual pude compreender que o técnico húngaro era então um homem profundamente amargurado por se considerar injustiçado. Ainda que penalizando-se por não ter sido capaz de fazer da situação uma leitura correcta e ter acedido em voltar onde considerava que nunca devia ter voltado. A revolta que então experimentava traduzia-a no queixume com que se despediu: - Se alguma vez teve um grande amor – referia-se ao Benfica – não ouse voltar nunca: É que os jogadores já não são os mesmos do tempo em que eu aqui cheguei. Agora são todos comendadores. E dizia isto expressando a sua mágoa num misto de italiano e de português do Brasil!
Carlos Sequeira