Se observarmos o que normalmente se passa na nossa região nas várias áreas do saber e em especial na área das artes plásticas, o nosso fa(r)do é isso mesmo: - vira o disco e tens a mesma música. Ao longo dos tempos assiste-se a uma constante desvalorização da nossa herança cultural. Faltam projetos de qualidade com continuidade e bem como uma verdadeira distinção entre o trigo e o joio. Um exemplo ilustrativo do encobrimento da nossa herança ocorreu na recente comemoração dos 25 anos da Universidade da Madeira. É que, realmente, os primeiros cursos superiores ministrados nesta ilha foram os cursos das Belas Artes que ocorreram nos finais da década dos anos cinquenta do século passado. Normalmente as nossas entidades públicas e privadas investem muito pouco na cultura e quando o fazem, falta-lhes a devida planificação a longo prazo, o que revela um completo desconhecimento do processo criativo, intelectual e estético. O senso comum julga que basta ter o talento e que a criação artística não exige além do esforço um vasto conhecimento multidisciplinar. Por outro lado, quando é para pagar (com o dinheiro de todos nós), simulam-se os respetivos concursos públicos e depois quem mesmo não os ganhando é que acaba por executar a sua obra. Esta faceta está associada, muitas vezes, à designação de artista do regime. Consultando o livro: “ESCULTURAS DA REGIÃO AUTONOMA DA MADEIRA inventário” da autoria de Nelson Veríssimo e Sainz - Trueva, constatamos que os escultores que executaram mais obras públicas na nossa região, dita autónoma, foram o escultor Francisco Franco (durante o regime salazarista) e o escultor Ricardo Veloza (durante o regime jardinista). A Educação Artística é fundamental e transversal à formação de qualquer cidadão e no entanto verifica-se cada vez mais um maior desinvestimento nas artes plásticas. As escolas, os serviços educativos dos museus e os outros espaços culturais não souberam estabelecer redes e parcerias entre si por forma a criarem novos e futuros públicos. Verificamos a existência de muito poucos espaços culturais na ilha razoavelmente dinamizados. No entanto a sua programação vive ciclicamente de exposições dos mesmos artistas o que leva a que tenhamos uma noção pouco realista das artes e dos nossos artistas regionais. Consequentemente resulta do facto desses mesmos espaços serem geridos por pessoas sem formação especializada nesta área. A outro nível a nossa comunicação social apresenta graves lacunas porque não possui jornalistas devidamente qualificados para proceder a uma crítica válida sobre o nosso panorama artístico cultural, evidenciado, por vezes uma falta de consideração perante os verdadeiros criadores. Julgo, inclusivamente, que alguns dos nossos jornalistas sejam umas autênticas marionetas nas mãos do poder religioso e político. Sempre defendi e assim continuarei, que uma região só será rica em termos culturais quando existir uma verdadeira cultura de partilha e intercâmbio de eventos e projetos com critérios e qualidades definidos. Não basta trazer de fora os artistas e eventos de renome. Também é importante valorizar e levar os nossos artistas alternadamente e de reconhecido mérito a exporem no estrangeiro e muitas vezes com custos bem inferiores ao que se tem vindo a pagar numa única obra pública do sempre e repetitivo artista do regime. A arte deverá ser dinâmica e não pode simplesmente pertencer a um grupo fechado porque os espaços são públicos e logo subsidiados por todos nós. Sabemos o quanto é importante a criatividade, a inovação e acima de tudo o saber resistir, desobedecendo a esta crise que resulta da podridão dos valores após o 25 de abril de 1974. Podemos falar, expressar, reivindicar, no entanto temos a consciência que sempre houve uma forma muito subtil de castigar e de prejudicar os que criticam. Por isso, a cobardia prevalece cada vez mais nesta terra. No próximo domingo há eleições para o Parlamento Europeu. Não fique em casa! Cumpra o seu dever cívico e seja honesto, inteligente e interventivo votando com consciência e sabedoria porque esta é a altura de dizer: - Basta!
Patrícia Sumares Professora