A crise política instalou-se de forma tão desastrada na Câmara Municipal do Funchal que nem Alberto João Jardim imaginaria que não precisava sequer de “mexer uma palha” para ver ruir as muralhas do reino da ‘Mudança’.

Se em Santa Cruz e em Machico, o líder do PSD não vê cair uma pedra em cada vez que investe, de aríete, contra as portas dos castelos, no Funchal, bastou um sopro para provocar na vereação coligada um efeito dominó devastador. E não foi uma rajada de nível laranja que semeou a desordem e levou para longe o compromisso no inovador elenco executivo da principal Câmara da Madeira. Bastou um vento primaveril de leste, vindo dos lados do Caniçal, para que, quem observava os Paços do Concelho pelo canto da janela, o encarasse como uma temível tempestade tropical.

Só uma liderança de cristal pode enfiar tantas carapuças na cabeça em tão pouco tempo e deixar que a sua casa seja tão permeável aos micro-climas internos e às superfícies frontais que, em apenas duas estações, devastaram um projecto de mudança. De carrapito em carrapito, a Babilónia instalou-se na Câmara do Funchal e já ninguém se entende. Só a imaturidade política e a abnegação podem explicar que mandatários do povo se dêem ao luxo de renunciar aos cargos que lhes foram confiados. Aquela encenação melodramática protagonizada pelos agora vereadores sem pelouro que estão lá a fazer não se sabe bem o quê, aquele exercício de auto-sonegação das suas próprias responsabilidades, reflecte bem que esta coligação estava preparada para derrotar, mas não para vencer. Estava talhada para lançar o aríete contra a porta dos Paços do Concelho do Funchal, tal como faz agora Jardim com as Câmaras que perdeu nos concelhos com mais eleitores.

A maldição do ‘saco de gatos’ que muitos vaticinavam cumpriu-se. Governar numa coligação formada por independentes e por partidos com linhas ideológicas a roçar a incompatibilidade pode ser giro, inovador e legítimo mas é inconsequente e desolador para as pretensões daqueles (mais de 21 mil) que lhes confiaram o voto. Evolução na democracia participativa? Pura utopia. Foi talvez um produto exótico da convergência levada ao extremo pela oposição coligada. Uma experiência que, a avaliar pelos resultados, não se repetirá tão cedo.

O projecto ‘Mudança’ do Funchal cometeu a proeza de se tornar num ‘case study’ nacional pelas piores razões. Descredibilizou-se e era dispensável numa região que acalenta tanto a vontade de mudar. De mudar para melhor. Esmorece assim essa vontade colectiva, degrada-se a imagem dos movimentos cívicos formados por independentes e vulgariza-se o compromisso, palavra cara e que tanta falta faz na vida política em Portugal. Está visto que derrotar o jardinismo é fácil. Difícil é executar a mudança.