O seleccionador nacional de futebol anunciou os seus 23 escolhidos para a aventura no Mundial 2014, que arranca no Brasil a 12 de Junho. A maioria das análises pisa e repisa a dispensa de Quaresma e a recusa de Danny – na minha opinião perfeitamente lógicas – e minimiza a não convocatória de Tiago. No geral, quem segue o futebol deve aceitar as escolhas de Paulo Bento, considerando uma série de factores que vão muito para além daqueles 90 minutos de cada uma das três partidas que, no mínimo, vamos disputar em terras brasileiras. O seleccionador nacional teve de escolher os melhores disponíveis para cada um dos sectores da ‘equipa de todos nós’, mas teve também de ponderar sobre quem tem o perfil para ‘mudar de família’ durante um mês, aceitando alterar as rotinas para viver durante esse período em prol da Selecção Nacional. Tratando-se da equipa de Portugal, com atletas de topo mundial, ou seja, jogadores com egos e personalidades muito distintos, a escolha para ‘fazer parte da família’ não é algo que se faça apenas a pensar nas qualidades meramente futebolísticas. Paulo Bento integrou diversos grupos de trabalho, em circunstâncias muito diferentes. Percebe da poda, por isso, muito para além daquilo que se lhe exige em termos técnicos.

Quaresma

Pelo que ficou dito, e por aquilo que os portugueses já conhecem de Quaresma, aceita-se perfeitamente a dispensa do actual extremo do FC Porto. E nem é preciso dar muitas voltas. O jogador andou por aí até estabilizar nos últimos meses nos portistas, onde nem tudo correu bem. Chegou gorducho, com muitos quilos a mais; as coisas pareceram encarrilar e Quaresma até chegar a dar um dar da sua graça. Mas sem resultados desportivos, vimo-lo a contestar, de forma subtil ou não, os dois treinadores que teve no FC Porto. Nenhum treinador gostaria de ter um jogador com aquele perfil, aturando-o cada um dos 30 e tal dias da operação no Brasil. Mesmo que estivesse numa forma fenomenal. O que claramente não é o caso.

Danny

O luso-venezuelano do Zenit reúne as condições técnicas para integrar os melhores de Portugal. É um jogador fabuloso e é um luxo não contar com ele. No entanto, temos de admitir a opção de Paulo Bento. O principal responsável pela Selecção Nacional tem o direito de não convocar Danny, com base nos últimos ‘incidentes’ com o jogador que, entre amuos e razões efectivas, não esteve presente quando a Selecção precisou dele. Nada a fazer agora. Um líder que é líder não pode tolerar essas inconstâncias e tem de preservar o grupo de outras situações idênticas. Paulo Bento fez bem.

Tiago

Vejo pouca gente a falar deste assunto. O médio do Atlético de Madrid, campeão em Espanha e que este sábado actua no Estádio da Luz na final da Liga dos Campeões, está num momento fantástico, na conjugação perfeita da sua condição física com uma experiência ao alcance de poucos, encarando de frente as maiores figuras do futebol mundial. Encaixaria no ‘nosso’ meio-campo que nem uma luva... Só de lembrar que o brasileiro Fernando, do FC Porto, chegou a ser hipótese, fico petrificado com essa aberração, considerando que há poucos meses ele dava entrevistas de olhos postos na Selecção do Brasil! É verdade que Tiago pediu dispensa da Selecção Nacional há uns anos. Dizem que o fez em tom contundente, o que por si só já seria suficiente para colocar uma pedra sobre o assunto. Mas a verdade é que, de forma correcta e respeitosa para com as actuais opções de Paulo Bento, voltou a abordar a possibilidade do regresso. A porta ficou entreaberta. Acho que o seleccionador deveria tê-la escancarado, apesar de aceitar a sua opção. Não há muitos Tiagos por aí. Muito menos com bilhete de identidade português.

Surpresas

Rafa e as outras referências secundárias da equipa formada por Paulo Bento poderão ter algo a dizer no Brasil. Desconhecidos, podem fazer valer essa condição para surpreender os adversários. Há também que assegurar uma renovação natural e as escolhas de Paulo Bento indiciam também essa preocupação. Agora que venha o Mundial!