Se estivermos atentos à realidade escolar, podemos afirmar que começa amanhã a época das provas finais de ciclo e dos exames. A aparente normalidade das escolas é “perturbada” por este “fenómeno” de primordial importância que se abate sobre todos os membros da comunidade escolar: alunos, professores, funcionários e pais e encarregados de educação. Parece pertinente fazer uma analogia com a tradicional afirmação de que está aberta a época de caça. Neste caso, está aberta a época dos exames, em que se sucedem reuniões e encontros para informar, coordenar e divulgar as regras e normas emanadas do Ministério da Educação que regem o funcionamento desses exames. Importa tudo saber sobre os procedimentos burocráticos inerentes à sua realização.
O que sempre me “surpreendeu” e continua a acontecer, é olhar para esta realidade da avaliação externa do processo educativo e achar que o foco está e permanece desfocado em relação ao que deveria ser a essência destas provas. O que vejo é uma quase “doentia obsessão”, de quase todos, pela vertente burocrática desta situação. O que importa é garantir que todos, mesmo os mais ínfimos procedimentos relativos à realização destas provas seja conhecido e milimetricamente cumprido. E esta faceta está bem presente na hierarquia das prioridades que surgem nessas reuniões realizadas. São as reuniões “obrigatórias” com os pais e encarregados de educação para “agradecer a presença e informar das recomendações importantes para a realização das provas”. E apresenta-se com pompa e cerimónia o elenco burocrático, de qual se destaca, entre muitos outros, os seguintes: é preciso cumprir todas as regras e normas das provas finais emanadas da Norma; ter só o material autorizado; trazer o documento de identificação senão fica um “aluno indocumentado” e é preciso o pai ir à escola e identificá-lo e só tem 48 horas para isso; as mochilas devem ser deixadas no local indicado para tal; o atraso relativamente ao início da prova não pode ser superior a 15 minutos; o aluno não pode abandonar a sala antes de terminado o tempo regulamentar da prova; não pode ter consigo quaisquer sistemas de comunicação móvel (mesmo que desligados) e antes de iniciar a prova tem de assinar uma declaração a dizer isso mesmo.
Um olhar atento para essa preciosidade burocrática apercebe-se de que algo está a falhar, está profundamente errado. Certamente já perceberam! Não se faz nenhuma recomendação para os alunos estudarem, para organizarem o seu estudo preparando com cuidado, com rigor e com método a “síntese” dos conteúdos e adquirindo as competências necessárias para responder com sucesso a essas provas, para a colaboração dos pais nesse processo. Afinal qual é a finalidade dos exames? Qual a sua função? Qual a sua utilidade? Não é para avaliar os conhecimentos que os alunos possuem ou são capazes de demonstrar nessa etapa do seu processo educativo? Não é para certificar as competências adquiridas pelos alunos? Não é para avaliar os programas? Não é para avaliar o próprio sistema educativo?
Será que estamos equivocados? Parece que sim. Afinal, é mesmo verdade, os exames parecem servir sim para aferir sobre o cumprimento ou não dos procedimentos, das regras que os norteiam e para classificar as performances dos alunos. O que interessa não são os alunos, nem as suas potencialidades e capacidades cognitivas, nem mesmo as competências que adquiriram ou não.
O que verdadeiramente interessa é que as regras sejam cumpridas e, posteriormente, os resultados obtidos sejam expressos nos tão famosos rankings. Estamos demasiado preocupados pelas “flores” que os alunos são capazes de produzir, esquecendo as pessoas que vivem nos alunos. Estes crescimentos muito insuflados na vertente académica, assente na ânsia e vaidade de muitos pais e professores em “esticar” os miúdos por um lado e deixá-los em “banho-maria” noutros, é negligência.
Gerir a vertente acadêmica, os resultados no português e na matemática é uma coisa muito importante, como é muito importante gerir a vida social, a vida familiar, a relação com os amigos e a novidade e a surpresa do quotidiano. Quando se põe “os ovos” todos no cesto das provas e exames e se esquece tudo o resto, algo não está bem e é preciso alguém (talvez a própria escola que visa o desenvolvimento integral da pessoa do aluno?) chamar a atenção para isto.
Marco Gomes