Depois de duas semanas com um dossier politicamente mal gerido, parece ter sido interrompida a novela rodada na Câmara do Funchal. Pode ser apenas um curto intervalo até aos próximos desentendimentos na Assembleia Municipal, mas não deixa de ser importante sublinhar o esforço que fizeram nos últimos dias os principais intervenientes para superar uma crise que não se esperava tão cedo e que não se sabe ainda como, nem quando, vai acabar. O que já se conhece neste intervalo é o duro golpe que sofreu todo um projecto de mudança que ia muito além do nome da coligação e do próprio Funchal. Esse estrago está feito e não tem volta a dar. Dirão os mais entusiastas da coligação que o tempo cura tudo, que o povo esquece, que já houve outras crises no passado. Tudo isso é verdade, mas não anula o tremendo pontapé na credibilidade de um projecto que sobreviveu às ideologias e às máquinas partidárias mas que abanou de cima a baixo por causa da intransigência e das decisões tomadas sem margem de manobra. O que já se sabe é que esta inesperada briga provocou um intenso desgaste no presidente, nos vereadores e em toda a coligação. Mais do que isso: belisca seriamente o ensaio para outras coligações, já para as regionais de 2015. E num plano mais imediato, não parece difícil imaginar estragos eleitorais a castigar os partidos da coligação já no próximo domingo. Perante estas duas semanas perdidas, importa saber a quem aproveitou este desnorte. E a resposta é simples: ao velho ‘jardinismo’. Nem tanto ao PSD-M que experimenta um caminho de renovação e estará mais interessado em demonstrar internamente que o tempo é outro, que há gente fora do partido que também é capaz e que é preciso fazer a mudança. Não, este clamoroso erro político interessou sobretudo aos restos desse ‘jardinismo’ que já nem estaria à espera de tamanha oferta para tentar legitimar erros bem mais graves. A verdade é que perante estas duas semanas perdidas resulta um desnecessário desbaratar de capital político que afecta todos os partidos envolvidos e respectivos dirigentes. Perdem todos. E perdem os vereadores - os que saíram, os que ficam e até os que vão entrar - mas perde também o presidente. Porque o reforço de poderes que ontem conquistou tem um efeito ilusório por vir acompanhado de uma autoridade conseguida a ferros. E de autoridade a ferros está o povo cheio. Agora que a crise parece estar no intervalo, resta colar os cacos, fazer as contas ao prejuízo e evitar que o projecto volte a quebrar-se. Duas semanas depois, é tempo de voltar à gestão da cidade.