Não há racionalidade nisto dos futebóis, já se sabe. Alguém tenta explicar o amor ou a paixão assolapada? Não, mas por que raio há sempre quem tente explicar matematicamente as lágrimas de vitória ou derrota depois de um jogo importante?
Só quem não sente “a chama imensa” por clube algum pode questionar, depois de um jogo como o de ontem, a desolação de tantos adeptos e comparar o comportamento destes contribuintes/ adeptos noutras situações como o aumento de impostos. E eu tenho pena, por um lado, que isto do amor e da paixão assolapada é coisa boa de sentir. Mesmo quando, como hoje, acordamos e parece que fomos atropelados por um camião de sevilhanas histéricas. Por outro lado, às vezes invejo-lhes a sorte. Que deve ser confortável não ter o coração neste desvario durante, no meu caso, um dia inteiro, à espera que uma bola entre. E realmente sobra-lhes mais tempo para pensar nessas coisas importantes como a crise, de que quase ninguém fale os outros dias do ano, quando não há finas da Liga Europa.
Mas voltando aos apaixonados. Se é verdade que não há razão nisto do sentir a bola, não é menos verdade que há padrões comportamentais que reflectem muito da sociedade.Há os que amam o seu clube acima de todas as coisas, não perdem pitada e fazem de cada jogo uma final. Têm sempre comentários a fazer, sobretudo aos árbitros, à relva e são uma espécie de Rui Santos do seu núcleo familiar e de amigos. São estes (nem todos) que normalmente festejam também publicamente as derrotas dos seus rivais, mesmo em competições de onde já saíram há tempos ou onde nem sequer entraram.
Depois há os que vão se entusiasmando com o sucesso e passam a ir ao estádio, onde não iam nos primeiros jogos, e acompanham a sua equipa até a final. Choram no fim quando perdem e vibram com uma vitória como se tivessem ganho o euromilhões (aliás esta é uma característica comum a um qualquer adepto independentemente do seu grau). Se ficam pelo caminho, regozijam-se e são capazes de torcer (sem euforias) pelos seus rivais nacionais quando se destacam em competições fora de portas, mas se estes perderem não se inibem de fazer uma piadinha.
Ainda há os que não ligam nenhuma, nem sabem o que é um prolongamento, mas estão lá nos jogos importantes a roer as unhas e a chatear os que os rodeiam com perguntas idiotas como: “O que é um fora-de-jogo?”. No fim são capazes de chorar (de alegria ou tristeza) mais do que qualquer outro.
Conheço de todos e estou algures no meio desta amálgama, que é nada mais nada menos do que o espelho da realidade social a outros níveis. Quem não conhece um invejoso, gente com mau perder e mau ganhar, o mesquinho, o rufia, o folião, o rei da festa? No fim de contas, é bola. No meu caso é ficar triste por um dia (para outros serão mais), ignorar o que não interessa, unir um coração despedaçado e começar de novo outra vez. Esta paixão tem picos, mas não acaba. É como a crise...