“Europa nascida na Ásia profunda ó filha do rei fenício Agenor que Zeus entranhado no corpo de um touro levou-te p’ra Creta cativo de amor Europa é de Homero de helénicas formas do fórum romano e da cruz de tantas nações ariana e semita ventre das descobertas da luz do diverso sistema do modo diferente da era da guerra e agora da paz és assim querida Europa” (...) Fausto* ? – Para Além Das Cordilheiras, 1987 É das letras e músicas que mais gosto. Gosto do Fausto. O músico. O letrista. O poeta. Essa voz que nos leva “por este rio acima”. Da Europa sempre achei curiosa a sua mitologia. E nunca percebi por que razão nos sentimos com falta de pertença. Talvez porque vivemos décadas e décadas de costas voltadas para Espanha e de frente para o Atlântico. Ainda estamos mareados porque continuamos a dizer “vou lá fora” mesmo que as fronteiras se diluam. Dos ilhéus ainda se entende. A geografia justifica. No espaço continental é mais difícil perceber esse comportamento que a classe política dirigente alimentou e alimenta. A Europa foi-nos “vendida” por via dos fundos comunitários. Dinheiro fácil que tinha de ser aproveitado. Uma espécie de caixa de esmolas de fácil acesso. Nessa altura, 80% dos portugueses confiavam na Comissão Europeia, diziam os estudos de opinião. Hoje a fasquia caíu para os 30%, segundo dados recentes. Até a moeda única é questionada passado os dias furor da viagem para o euro. Dos dias em que a bica de 50 escudos passou a ser vendida a 50 cêntimos sem nos darmos conta que o custo do mesmo produto duplicara. Mas andávamos felizes da vida como tontos porque deslumbrados pelo slogan publicitário de uma Europa que não nos queria e que finalmente nos quis e que nós conhecíamos como emigrantes de lavar chão. A declaração de Schuman era-nos vaga mas acreditávamos que “a Europa não se fará de uma só vez, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem primeiro uma solidariedade de facto”. Hoje somos cépticos. Sobretudo porque em Portugal não se criou uma massa crítica na sociedade portuguesa. A falta de informação sobre as questões europeias foi e é um grave problema de ausência de comunicação e de formação deliberadas uma vez deixada nas mãos dos “iluminados” porque alcantorada como forma de poder residual em que só meia dúzia entende o que se passa em Bruxelas e que transformaram a Europa das decisões numa espécie de Monte Olimpo não da Grécia mas de Marte. E assim vamos bebendo as gotas que nos chegam dos analistas que “acham” e que falam como se fossemos uns tristes ignorantes que não têm capacidade para entender mais do que a discriminação da factura da água e da eletricidade (por vezes, nem isso) alimentado ainda mais aquele espírito que os portugueses não conseguem libertar-se e que se chama subserviência. Ficamos à espera do saber, do conhecimento delegado, dos que nos representam no parlamento europeu, o único orgão verdadeiramente democrático da União Europeia porque eleito por sufrágio universal, para que de uma forma concreta fomentem a urgência em nos tornarmos europeus. Termos opinião sem cair da esparrela (uma armadilha de caça) de nos tornarmos eco de “sound bites” e aceitarmos tudo sem argumentos. * jornalista do DN nacional
Lília Bernardes *