
Há duas semanas, quando a ‘troika’ veio cá fazer a 12.ª e última avaliação ao programa de ajustamento económico e financeiro, tudo parecia caminhar sobre rodas. Aquilo eram Mestres de Avis em cada esquina do Palácio do Governo, uma reciprocidade encantadora de elogios e uma garantia repetida de que a saída seria mesmo limpinha, sem espinhos.
Bastou que a tríade especializada em resgatar bancos alemães embarcasse no aeroporto de Lisboa com destino à capital do euro para vermos o Governo português desmanchar o sorriso forçado que conseguiu segurar perante os credores. Portugal lá regressou aos mercados, as agências de rating elevaram a notação de “Ba3” para Ba2”, que é qualquer coisa como de lixo orgânico para charco pantanoso e regressou, também, a chantagem à boca de quem governa um país de castelos entre a espada e a parede.
Passos Coelho bem que pode insistir em fechar o negócio com os estrangeiros para só depois discutir com os seus nacionais. Acredito que haja muita relutância dos parceiros sociais e dos partidos da oposição em contribuir na partilha de propostas com medidas concretas para… reduzir despesa pública. O primeiro-ministro pode até afirmar de peito inchado que não tem “nenhum medo de ser julgado” nas eleições de 25 de Maio - ai de quem governe com medo do escrutínio dos seus cidadãos. Só não pode ser chantagista.
Se bem me lembro, o primeiro-ministro foi o primeiro a rosnar à saída da ‘troika’, quando insinuou que aumentaria os impostos se o Tribunal Constitucional ‘chumbasse’ as propostas de corte na despesa pública. Desde Dezembro de 2012 que anda a brincar à reforma do Estado, agora esconde o ‘jogo’ para que, depois das ‘europeias’, seja um vai ou racha? E a reforma administrativa, uma das bandeiras de campanha e uma inevitabilidade face à nossa dimensão, volta a ser ultrapassada, e logo por um novo punhado de propostas de alteração do Código de Trabalho decidido unilateralmente que, por um lado, escancara mais ainda a porta às empresas – o sector privado que representava, há um ano, 98,1% dos cerca de 700 mil desempregados ‘produzidos’ pela austeridade – e, por outro, apressa e barateia o emagrecimento da administração pública?
De omissão em omissão, chega-se à conclusão que esta 12.º e última avaliação, além de não estar concluída, não reserva nada de fracturante. É um pacote de propostas frustrantes que o Governo foi incapaz de implementar antes de levar a cabo um programa balanceado no vício de resolver tudo com o aumento de impostos. É que agora, faz uma diferença substancialmente grande. É aquela que distancia os grandes estadistas reformistas dos governos que planeiam os programas às escondidas e que executam medidas às pinguinhas, em para e arranca, andando ora para a frente ora para trás, consoante o grito dos ipirangas que se mexem na malha de poderosos interesses dos quais este Governo nunca conseguiu se libertar.
É nesta conjuntura de crise de identidade governativa que ouvimos a ameaça de que se alguma objecção se levantar ao aperto de mão selado com a ‘troika’, fica desde logo comprometida a derradeira tranche para Portugal e vamos ouvir falar de intervenção externa por mais algum tempo. Às exportações, o Governo deu incentivos, à economia interna, o Governo reserva-lhe umas bastonadas que é para aprender a crescer. E continua a acreditar que com um hematoma aqui, um galo acolá, elevará o PIB. O mais nojento de tudo isto (desculpem mas não encontrei termo mais adequado) é que seja a flexibilização laboral, já enrugada do ar que perdeu, a pagar a última tranche no país europeu que mais tem feito por desvalorizar o trabalho.