Na política, nos dois pólos Poder/Oposição, sempre se assistiu a protagonistas que lutam quase com idêntica determinação por aquilo que perseguem. Uns fazendo tudo (e sobretudo prometendo tudo) para chegar à mesa do Poder, fixados nas mordomias e no estatuto social que essa via permite; e claro, também de olhos postos na possibilidade de conseguir fazer coisas, governar, administrar. Outros, esforçando-se por denunciar e contrariar, cumprindo os princípios básicos da Democracia, mas sem forçar muito, para não correr o risco de ser muito convincente, sob pena de ter que deixar as mordomias da Oposição (que também as há) e passar para o outro lado, onde se exige o cumprimento daquilo que se propalou da boca para fora.
Este retrato não acrescenta nada de novo, é verdade. Estamos tão familiarizados com esta realidade, somos tão condescendentes que já nem ligamos. Eu, por exemplo, só ‘despertei’ verdadeiramente para os efeitos perniciosos deste ram-ram quando, há uns anitos, no cenário político da altura, se desenhava a hipótese do Bloco de Esquerda constituir-se num aliado do Partido Socialista, de José Sócrates, para segurar aquele que era um governo minoritário.
Essa máquina falante, de seu nome Francisco Louçã, surpreendeu-me pela forma como fugiu do círculo do poder como o diabo da cruz. Como sempre, arengou logo meia dúzia de exigências para inviabilizar qualquer cenário de acordo. E eu, que já imaginava esse cérebro fantástico a liderar o Ministério da Educação e a vê-lo sanar de vez os permanentes conflitos com os intocáveis dos professores! Caía um mito, não sem que antes se despedisse com mais uma pérola: “eu sou tão bom e insubstituível, que vou designar dois camaradas para ocuparem o meu lugar.” E a verdade é que os outros inteligentes aceitaram…
Vem isto a propósito daqueles que passam toda uma vida política a apresentar soluções para os outros implementarem. Em particular na política, mas não só. Chamados a concretizar o que sempre defenderam com tanta veemência, legitimados pela vontade popular, finalmente dotados dos mesmos meios, esgotam os períodos de estado de graça e é a desgraça que se vê.
Aquilo a que estamos a assistir na Câmara Municipal do Funchal não se enquadra totalmente naquilo que tentei abordar nos parágrafos anteriores. É algo mais complexo, que tem obrigatoriamente de proporcionar ensinamentos para o futuro. Dá a impressão que, na hora dos consensos fáceis, algumas pessoas não queriam (ou nem sequer punham a hipótese) de chegar ao poder. Nunca imaginaram sair do zona de conforto que lhes permitia denunciar, criticar, propor e exigir, sem imaginarem que, chegados lá acima, seria preciso fazer alguma coisa, contando que no outro lado haveria críticas, propostas e exigências com o mesmo grau de irresponsabilidade que tanto conheciam e apreciavam.